É… mais uma copa do mundo começou. Parece ser o único assunto do país, tem algum tempo que todos os telejornais e vários sites de notícias dedicam um tempo enorme a isso. Para nós brasileiros, gostar da copa não é exatamente uma opção, se não gostar vai passar um período razoável sem poder se comunicar ou se irritar. E isso ainda é periódico, a cada quatro anos acontece a mesma febre.
Houve uma série de shows musicais na véspera e no dia do início, após a cerimônia de abertura (que competentemente mostrava a África ao mundo) o jogo que iniciou a copa foi da seleção local, a África do sul, e o México. Um jogo razoável, onde a África do sul de Parreira mostrou que apesar de suas limitações estava na competição em forma e disposta a fazer seu país orgulhoso de sua participação, como pediram seguidamente a Parreira, segundo suas declarações em entrevistas.
O México, por sua vez, vinha de uma preparação longa (o maior período de treinamento entre as 32 seleções classificadas) que resultou num nível suficiente para bater a seleção da Itália nos amistosos que antecederam a copa, um feito inédito. Terminando, assim, num empate justo.
Alguns outros jogos já ocorreram e até agora poucas surpresas. O jogo com maior segurança, por conta do risco de atentados, Inglaterra e Estados Unidos, terminou em empate, nossos “hermanos” venceram com alguma dificuldade a Nigéria, mas ficaram em segundo no grupo porque a Coréia do sul venceu por 2 gols a Grécia, entre outros jogos menos empolgantes. Não posso deixar de mencionar que finalmente o futebol se apresentou na copa, pelo selecionado alemão, com 4x0 (com grande dose de sorte dos adversários por não ser uma goleada maior) contra a fraca Austrália.
Com isso pouca gente viu ou ligou para a melhor seleção do mundo perder para a Holanda por 3x0. Calma, o Brasil ainda não estreou na copa, não enquanto escrevo este post. Mas foi a seleção brasileira que perdeu para a Holanda, no vôlei, pela liga mundial. Apesar do estádio cheio, em Brasília, houve pouca divulgação, e ter um grande público quer dizer que alguns poucos milhares viram, não que o Brasil viu. Os noticiários mostraram, mas não como nas edições anteriores, nem mesmo antes do Brasil se tornar a potência do vôlei que é hoje. A sorte é que cada seleção na fase de classificação joga duas vezes seguidas com cada adversário de seu grupo e no dia seguinte o Brasil ganhou por 3x1 com parciais muito convincentes e jogadas espetaculares.
O mesmo ocorre com a Fórmula 1 e quase todo outro tipo de notícia. É certo que a Fórmula não empolga mais como antes e os brasileiros não estão bem esse ano, apesar de serem quatro. Temos aprendido a reacompanhar o evento aos poucos, mas é pouco provável que volte a ser tão empolgante como era na época de Ayrton Senna, pelo menos até que outro brasileiro ganhe o título. Mas esse não é o ponto, o ponto é que assim como o campeonato brasileiro de futebol e a taça Libertadores da América fizeram uma pausa até depois da copa, mais por conta de todos os jogadores envolvidos voltem a estar disponíveis para seus times, o Brasil está esperando. A diferença é que essas competições esperam pelo fim do torneio e o Brasil pelo resultado de nossa seleção.
Na copa de 1986, no México, vi um movimento que não consegui entender, brasileiros dizendo que não torceriam pela nossa seleção. Se diziam felizes pelo Brasil ter perdido e que isso era melhor para o povo. Na copa seguinte, na Itália, já tinha idade suficiente para entender, mesmo que esse movimento fosse mais fraco e também a seleção. O povo, feliz pela conquista, seria mais facilmente dominado pelo governo. Pessoas que assistiram à copa de 1970, também no México, diziam que o governo militar se aproveitava que o povo fazia festa para continuar no poder.
Por algum tempo pensei que isso poderia ser assim, mesmo que não chegasse ao estremo de torcer contra por achar um pensamento um pouco radical, mas o tempo passou e nós voltamos a ganhar um título mundial. Como as copas passaram a coincidir com as eleições, seria o teste perfeito. A grande mudança foi a eleição de FHC? Mas seria esperado por conta da grande propaganda de que ele seria responsável pelo plano Real. Em 2002 ganhamos de novo e houve uma grande mudança, a eleição do Lula. Mas seria tão estranho assim, uma vez que havia tanta gente insatisfeita e há tanto tempo o PT corria por fora em segundo por três eleições?
É verdade que nosso povo liga mais para a copa do que para quem é o presidente, mas não acho que ganhar a copa deixa o povo suscetível ao governo. Será manobrado como sempre foi, ganhando ou não o título. O futebol pode ser o ópio do povo? Talvez, mas não acho que alguém que consegue tirar proveito dessa situação não conseguiria se o resultado fosse diferente.
Se o Brasil ganhar o povo será enganado com o resultado das eleições? Acho que sim, mas se perder o engano será exatamente o mesmo, não haverá influência da copa, continuaremos por algum tempo com essa dicotomia falsa de direita contra esquerda onde qualquer lado não é o que parece e as opções continuam escassas para quem quer mudar alguma coisa.
Vou votar, não se engane, votar nulo para mim é tão útil quanto torcer pela Argentina, tenho o primeiro turno para escolher quem eu achar melhor e talvez o segundo para escolher o mal menor. Talvez em algum tempo existam mais pessoas que não pensem que votar no seu candidato no primeiro turno não seja jogar fora, já que pensa não ter chance de ir para o segundo. Um candidato sem o apoio de um dos dois lados dominantes atualmente parece não ter chance, por isso não merece o voto, logo nunca chegará a ter chance, um perigoso ciclo vicioso.
O povo tem o governo que merece e o nosso ainda merece esse tipo que temos nos últimos anos. Após anos de ditadura, o primeiro eleito é retirado do poder e depois disso só PSDB contra PT, precisamos enxergar mais longe que isso, vamos esperar que não demore.
“…vamos esperar que não demore.” Vai demorar. =)
Demorar é relativo, mas podem acontecer coisas que catalizem o processo, como foi com o fim da ditadura, que deixaria um governo eleito indiretamente por décadas, só teve um presidente, e sinceramente, sendo quem era, ficar só 5 anos foi realmente pouco.
A saída do Collor foi outra grata surpresa, não acho q vá ser igual tão cedo, mas quem sabe.