Efeitos do empuxo na pesagem de amostras, ou: como o ar altera o peso das coisas

10 de abril de 2010
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Imagine-se numa situ­ação em que é pre­ciso ter muita pre­cisão na pesagem de deter­mi­nada sub­stân­cia. Certo, para a maio­ria das pes­soas, unidades de medi­das de massa como qui­los (Kg) ou gra­mas (g) são mais que sufi­cientes, con­tudo, para amostras menores, como miligra­mas (mg) ou micro­gra­mas (µg), a mín­ima alter­ação durante a pesagem pode sig­nificar uma vari­ação sig­nif­i­can­te­mente grande para obter resul­ta­dos com grande margem de erro.

Pense da seguinte forma: se você tem um quilo de açú­car e, na hora da medida, percebe que colo­cou, por aci­dente, uma col­herz­inha de chá a mais na bal­ança, pode igno­rar este erro com segu­rança bas­tante razoável, já que a col­her de chá alter­aria a massa total em somente 0,2%; con­tudo, se você tivesse dez gra­mas de açú­car e errasse a medida por uma col­her de chá, isso rep­re­sen­taria uma alter­ação de 20% no resul­tado, o que, diga-se de pas­sagem, pode se tornar ainda pior se você tra­bal­har com uma amostra de, dig­amos, 10 mg (gerando um erro de 20.000%).

O que pou­cas pes­soas percebem é que durante a medida de quan­ti­dades peque­nas de deter­mi­na­dos mate­ri­ais (sub­stân­cias) como remé­dios ou com­pos­tos quími­cos de lab­o­ratório, o próprio ar influ­en­cia a pesagem de modo a adul­terar os resul­ta­dos e essas alter­ações devem-se a um sim­ples fenô­meno: empuxo.

O que é empuxo?

A definição for­mal é a seguinte:

Impul­são ou empuxo é a força hidrostática resul­tante exer­cida por um flu­ido (líquido ou gás) em condições hidrostáti­cas sobre um corpo que nele esteja imerso. A impul­são existe graças à difer­ença de pressão hidrostática do corpo, visto que esta é pro­por­cional à massa especí­fica do líquido (ou den­si­dade), à acel­er­ação da gravi­dade, e à altura de pro­fun­di­dade. Essa pressão será maior na parte infe­rior do corpo, pois estará à maior pro­fun­di­dade, gerando uma força resul­tante — a impul­são — tam­bém con­hecida como princí­pio de Arquimedes.”1

I = \rho_f V_fg

Isso sig­nifica o seguinte: no século III a.C, Arquimedes desco­briu, enquanto tomava banho, que seu corpo flu­tu­ava e pare­cia mais leve dev­ido a uma força que a água fazia para cima e que essa “força” era igual à massa de água deslo­cada pelo vol­ume de seu corpo; ou seja: se, ao mer­gul­har na água, o corpo de Arquimedes deslo­casse 10 Kg de água, a força exer­cida pela água (empuxo) seria de 10 Kg. É pre­ciso ter em mente que o impor­tante aqui é a den­si­dade. Basi­ca­mente, se um corpo for muito leve, mas ocu­par muito espaço, ele flu­tu­ará bem. Um exem­plo de algo que ocupa muito espaço e pesa pouco? Um chu­maço enorme de algo­dão, um balão cheio de ar quente…

A chave aqui é saber que o ar e a água são, ambos, flu­i­dos. Toda a física que se aplica à água, tam­bém se aplica ao ar. Da mesma forma que um ice­berg flu­tua na água, um balão de ar quente flu­tua no ar e tudo isso é por causa do empuxo (reparou como as coisas são mais leves debaixo d’água?).

Então…

Então, tudo que está exposto ao ar (já que o ar é um flu­ido) tam­bém sofre um pequeno empuxo para cima e acaba, por assim dizer, alivi­ado de deter­mi­nado peso. Nós esta­mos, de certa forma, mer­gul­ha­dos num oceano de ar, mas somos muito pesa­dos (muito den­sos) para que o empuxo exer­cido pela atmos­fera nos faça flu­tuar ou altere nosso peso de forma sig­ni­fica­tiva; entre­tanto, se o corpo pesa muito pouco, mesmo o pequeno empuxo pro­por­cionado pelo ar é capaz de causar alguma alter­ação no peso real.

Cor­rigindo os resultados

Para cor­ri­gir os erros cau­sa­dos pelo empuxo do ar nas mas­sas medi­das, é pre­ciso saber os seguintes dados: den­si­dade do ar (dar), den­si­dade do objeto/substância a ser pesado (dobj) e a den­si­dade dos con­trape­sos (mas­sas) usadas pela bal­ança (dmas­sas). A den­si­dade média do ar é de 0,0012 g/cm³ e con­vém esclare­cer que para todos os obje­tos com den­si­dade maior que 2 g/cm³ não há neces­si­dade de realizar essas correções.

A equação das mas­sas cor­rigi­das é dada por:

P_{1}=P_{2}+P_{2}\left(\frac{d_{ar}}{d_{obj}}-\frac{d_{ar}}{d_{massas}}\right)

Onde P1 é a massa cor­rigida e P2 é a massa não corrigida.

Que fica fácil de enten­der com um exem­plo prático:

Suponha que um frasco vazio pesou 7,6500 g e, após a intro­dução de um líquido orgânico com uma den­si­dade de 0,92 g/cm³, 9,9700 g. A bal­ança era equipada com mas­sas de aço inox­idável, cuja den­si­dade é 8,0 g/cm³. Qual é a massa da amostra, corrigida?

A solução é simples:

O frasco vazio pesava 7,6500 g e cheio, 9,9700 g, isso sig­nifica que a massa de amostra adi­cionada é: 9,9700 – 7,6500 = 2,3200, por­tanto, nosso P2 é igual a 2,3200 e já podemos uti­lizar nossa equação para desco­brir quanto erro foi ger­ado pelo empuxo do ar:

P_{1}=P_{2}+P_{2}\left(\frac{d_{ar}}{d_{obj}}-\frac{d_{ar}}{d_{massas}}\right)

P_{1}=2,3200\: g+2,3200\, g\left(\frac{0,0012}{0,92}-\frac{0,0012}{8,0}\right)

P_{1}=2,3200\: g+2,3200\, g\left(0,001304348?0,00015\right)

P_{1}=2,3200\: g+2,3200\, g\left(0,001154348\right)

P_{1}=2,3200\: g+0,002678087\, g

P_{1}=2,3227\, g

Ou seja, entre o peso sob o efeito do empuxo (2,3200 g) e o peso cor­reto, cor­rigido (2,3227 g) há uma difer­ença de 0,1% cau­sada sim­ples­mente pela pre­sença de ar, o que, depen­dendo do valor daquilo que esta­mos pesando, pode sig­nificar um enorme prejuízo.

  1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Empuxo
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