Método para detecção de envenenamento por arsênico: química forense

3 de março de 2010
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Antes da química forense o arsênico foi infalível para assassinatos perfeitos.

Por mais de 12 sécu­los, o arsênico foi extrema­mente pop­u­lar como veneno. Sua pop­u­lar­i­dade remonta ao século VIII, quando o alquimista árabe Abu Musa Jabir Ibn Hayyan (721 – 815), con­hecido como Geber, desco­briu uma maneira de con­verter o arsênico puro (que é um metal acinzen­tado) em óxido de arsênio1 (As2O3, um pó branco, sem gosto e sem cheiro). Na sua forma de óxido, o arsênico pode ser facil­mente adi­cionado à comida ou bebida de uma pes­soa sem lev­an­tar sus­peitas, uma vez que seguiu inde­tec­tável até o século XIX. Como resul­tado, o arsênico tornou-se pop­u­lar em diver­sas classes, desde ladrões ordinários até reis, rain­has e papas. De fato, o arsênico era tão pop­u­lar que foi apel­i­dado de “pó de her­ança” porque cos­tu­mava acel­erar de forma muito con­ve­niente a her­ança de tronos e títu­los da nobreza.

Trióx­ido de arsênio

Os Bór­gia, fig­u­ram como o mel­hor exem­plo do uso de arsênico para alcançar obje­tivos de poder. Foram uma das mais notáveis famílias da época da renascença, tornando-se céle­bres por sua índole cor­rupta durante o período em que um deles tornou-se Papa. Sobre a família, como um todo, pesavam acusações por diver­sos crimes, alguns com provas sub­stan­ci­ais, como adultério, simo­nia, roubo, estupro, tra­paça e assas­si­nato por envenenamento.

Rodrigo Bór­gia, con­hecido por suas intri­gas, foi eleito Papa em 1492 e ado­tou o nome de Alexan­dre VI. O Papa Alexan­dre VI teve diver­sos fil­hos recon­heci­dos, estando Lucrezia e Cesare entre os mais famosos. Cesare, apoiado pelo pai, ten­tou tornar-se o sober­ano da Itália, mas em 1503, o Papa Alexan­dre mor­reu subita­mente e diz-se que ele e Cesare beberam, aci­den­tal­mente, de uma de suas próprias gar­rafas de vinho envenenadas.

Os sin­tomas do enve­ne­na­mento por arsênico eram espe­cial­mente con­ve­nientes porque em muito se assemel­havam aos sin­tomas do cólera, que era comum na época.

Con­forme cresceu o inter­esse na ciên­cia forense durante o século XIX, um dos maiores prob­le­mas que se apre­sen­tavam aos quími­cos era, jus­ta­mente, a iden­ti­fi­cação de arsênico no corpo, per­mitindo, então, o jul­ga­mento dos cul­pa­dos por envenenamento.

Um grande número de cien­tis­tas e quími­cos forenses perseguiu esse obje­tivo, incluindo Math­ieu Joseph Bonaven­ture Orfila (1787 — 1853), o “pai da tox­i­colo­gia” e Karl Wil­helm Scheele (1742 – 86), um dos desco­bri­dores do oxigênio; entre­tanto, o primeiro a ter sucesso foi o químico britânico James Marsh (1794–1846).

Em 1832, Marsh estava empre­gado no Arse­nal Britânico Real e foi con­vo­cado a teste­munhar como per­ito no caso de enve­ne­na­mento cujo sus­peito era um tal George Bodle. Marsh ten­tou usar um teste tradi­cional de detecção de arsênico per­ante o juri. Nesse teste, sulfeto de hidrogênio gasoso é bor­bul­hado numa solução con­tendo flu­i­dos reti­ra­dos do corpo enve­ne­nado. Se hou­vesse arsênico nesses flu­i­dos, a solução ficaria amarela.

O teste deu resul­tado pos­i­tivo, con­fir­mando o enve­ne­na­mento por arsênico, con­tudo, o juri con­siderou o réu inocente. De acordo com um obser­vador, o juri não ficou con­ven­cido pelo teste de Marsh porque não pud­eram ver o arsênico (a sub­stân­cia metálica cinza).

Marsh ficou furioso, não ape­nas pela decisão do juri mas porque, tem­pos mais tarde, o réu con­fes­saria que real­mente havia cometido o enve­ne­na­mento. Foi por esse motivo que Marsh decidiu criar um teste “à prova de lei­gos” para detecção de arsênico que fosse capaz de con­vencer até mesmo o mais igno­rante dos obser­vadores2. Essa tarefa tomou-lhe qua­tro anos, mas ele teve sucesso.

O teste que Marsh desen­volveu (e que hoje car­rega seu nome) é usado ainda nos dias de hoje para detec­tar arsênico em amostras tão peque­nas quanto 0.02 miligra­mas.

O primeiro passo no teste de Marsh é adi­cionar zinco metálico puro e ácido sulfúrico à amostra a ser tes­tada. Se arsênico (na forma de óxido de arsênico) estiver pre­sente na amostra, será reduzido pelo zinco:

As_{2}O_{3}+6Zn+<span class=6H^{+}\rightarrow2As^{3-}+6Zn^{2+}+3H_{2}O" />

Nessa solução ácida, os íons As3– resul­tantes se com­bi­nam com íons hidrogênio do ácido sulfúrico para pro­duzir um gás con­hecido como arsina (AsH3):

As^{3-}+<span class=3H^{+}\rightarrow3AsH" />

A arsina é, então, pas­sada por um longo tubo aque­cido. Calor provoca a decom­posição da arsina, que forma um filme prateado escuro de arsênico e gás hidrogênio:

2AsH_{3}\:\underrightarrow{calor}\:2As+<span class=3H_{2}" />

O filme de arsênico é, muitas vezes, chamado de “espelho de arsênico” e seu tamanho é dire­ta­mente pro­por­cional à quan­ti­dade de arsênico pre­sente na amostra, o que sig­nifica dizer que quanto maior o espelho de arsênico, maior a quan­ti­dade de veneno pre­sente no corpo, per­mitindo uma deter­mi­nação quantitativa.

O teste de Marsh, con­tudo, não se trans­for­mou num sucesso abso­luto, pois, con­forme out­ros per­i­tos pas­saram a usá-lo, um grande número de prob­le­mas começou a ocor­rer. Por exem­plo, o arsênico pode ocor­rer nat­u­ral­mente junto às amostras de zinco que con­têm impurezas e levar a falsos-positivos. Hoje em dia, con­tudo, a pureza das sub­stân­cias já é sufi­ciente para tornar o teste confiável.

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  1. Ansari, Farzana Latif; Qureshi, Rumana; Qureshi, Masood Latif (1998), Elec­tro­cyclic reac­tions: from fun­da­men­tals to research, Wiley-VCH, p. 2, ISBN 3527297553
  2. Marsh J. (1836). “Account of a method of sep­a­rat­ing small quan­ti­ties of arsenic from sub­stances with which it may be mixed”. Edin­burgh New Philo­soph­i­cal Jour­nal 21: 229–236
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4 Responses to Método para detecção de envenenamento por arsênico: química forense

  1. Henrique Junior on 22 de setembro de 2010 at 15:32

    Não entendi muito bem a sua per­gunta. O que exata­mente você quer saber?

  2. roberto on 16 de dezembro de 2010 at 21:20

    equizema pul­monar, é sin­toma do arsenico? Urgente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Henrique Junior on 16 de dezembro de 2010 at 23:07

      Não, não.
      Os primeiros sin­tomas de enve­ne­na­mento agudo por arsênio por digestão são prob­le­mas diges­tivos: vômito, dores abdom­i­nais, diar­réia fre­quente­mente acom­pan­hada por san­gra­mento. Doses sub-letais podem con­duzir a con­vul­sões, prob­le­mas car­dio­vas­cu­lares, infla­mação do fígado e rins e anor­mal­i­dades na coag­u­lação do sangue. Estes são segui­dos pela aparição de lin­has bran­cas car­ac­terís­ti­cas (lis­tras de Mees) sobre as unhas e por perda de cabelo. Doses mais baixas con­duzem a prob­le­mas de fígado e rins e a mudanças na pig­men­tação da pele.

  3. Demônio das sombras on 23 de janeiro de 2011 at 11:53

    Não, mas os sin­tomas podem ser semel­hantes. Por exem­plo a nitida impressão de ter líquido
    nos pulmões.

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