Vocação e costume

10 de fevereiro de 2010
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Exis­tem com­por­ta­men­tos e “ver­dades gerais” que são aceitos por uma parcela expres­siva de todo agru­pa­mento pop­u­la­cional. Qual a origem disso? Quase sem­pre é difí­cil de anal­isar ou quan­tificar. No entanto, em algu­mas situ­ações há como intuir como tudo se processa para que a “ver­dade geral” ou com­por­ta­mento passem incólumes pelas bar­reiras ou críti­cas de muitos, como quando são fatores que se repetem tanto que nos impe­dem de anal­isar de maneira apropriada.

É bom que seja assim, de outra forma todos os val­ores tão preza­dos ou mesmo os mais odi­a­dos, nossa cul­tura, não seriam pos­síveis de man­ter, porque todos os dias seriam ques­tion­a­dos nova­mente, evi­tando o desen­volvi­mento humano. O que, cer­ta­mente, não quer dizer igno­rar tudo isso sem­pre, não criticar nen­hum valor esta­b­ele­cido, longe de mim sequer pro­por algo do tipo. Tam­bém é parte do desen­volvi­mento humano o ques­tion­a­mento, assim como a busca da mudança, mesmo com nossa incan­sável resistên­cia a ela.

Mas assim como a mania por dita­dos pop­u­lares se espalha, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. A repetição con­stante de infor­mação, mesmo que ini­cial­mente con­tes­tada, pode vir a se trans­for­mar em real­i­dade para nossa per­cepção. Nor­mal­mente, para iden­ti­ficar a ocor­rên­cia é necessário estar fora do grupo que está acos­tu­mado à tal informação.

Alguns exem­p­los não farão mal. Notí­cias dessa sem­ana dão conta de um aviso do poderoso con­glom­er­ado Google a um con­cor­rente chinês desav­isado (?) que usava como url o endereço www.goojje.com, além disso, o logo da empresa como na figura. Como é pos­sível que alguém não saiba que o uso de algo tão descarada­mente copi­ado de alguém de sucesso não seria notado, ainda mais pelo dono da marca? Acho que a resposta é óbvia, depois da repetição, muito bem demon­strada pela invasão de pro­du­tos chi­ne­ses no mundo todo, com muitos deles cópias mal feitas de pro­du­tos con­heci­dos, nada mais nat­ural que ocor­resse algo do gênero no mundo vir­tual. Era ape­nas questão de tempo.

Outra notí­cia da sem­ana, com assunto total­mente diverso, é a de que a última atu­al­iza­ção do novís­simo Win­dows 7 estaria cau­sando trava­men­tos e prob­le­mas aos usuários. Até aí tudo bem, ou mel­hor, pior, ou como esper­ado. O que teria a ver com o imi­ta­dor do Google na China? Nova­mente muito sim­ples, a repetição sis­temática que a maio­ria de nós (estou assu­mindo que seja um usuário de com­puta­dor, ou como estaria aqui lendo isso? Ah! Deixa pra lá…) sofreu nos últi­mos anos, nos fez crer que seria nat­ural e esper­ado que o sis­tema travasse após uma atu­al­iza­ção, ou que a posição do suporte após a notí­cia se espal­har fosse a recomen­dação de des­fazer o pro­ced­i­mento, mesmo que em alguns casos o sis­tema não ini­cie para que isso seja feito, entre out­ras que quase todo mundo já viu por aí.

Aí os flame­boys entram para defender a amada Microsoft, ou os usuários de Linux para apoiar e acres­cen­tar mais prob­le­mas à lista e falar o quanto este é mel­hor que aquele, como se algum deles gan­hasse alguma coisa com isso. Não se trata disso, a obser­vação é a respeito do que um usuário comum passa, como eu tam­bém pas­sei e por isso con­heço tanto os prob­le­mas como as des­cul­pas, e como isso nos afeta de modo a não mais ver como isso é estranho. Hoje vejo como é absurdo porque pas­sei a com­parar o Win­dows com out­ros pro­du­tos e serviços ofer­e­ci­dos por out­ras empre­sas e até com out­ros pro­du­tos da própria Microsoft. É certo que não uso mais Win­dows, quando tenho escolha, como em casa, mas o Linux tam­bém tem seus prob­le­mas, o assunto é outro.

Voltando à com­para­ção com out­ros pro­du­tos e serviços, se fosse uma TV, aceitaríamos facil­mente que não fun­cionasse todos os dias, ou que demor­asse a ligar, ou pre­cisasse desli­gar e ligar depois de algu­mas oper­ações, quem sabe sem motivo algum de vez em quando? Mas a TV é hard­ware, aceitaríamos com facil­i­dade se fosse o serviço de TV a cabo? Com certeza é mais fácil se pen­sar­mos em out­ros em que somos cos­tumeira­mente mal aten­di­dos e fica mais famil­iar, como tele­fo­nia, ban­cos e por aí vai.

Assim como a quase vocação dos chi­ne­ses para a cópia no mundo dos negó­cios, vinda provavel­mente da repetição ilim­i­tada de tal com­por­ta­mento, muito tam­bém por razões de sobre­vivên­cia ou que quer que seja, não vem ao caso, o cos­tume de achar que sis­temas não pre­cisam fun­cionar sem­pre nos levam a não ati­tude, à apa­tia. Difí­cil é enga­nar a mente e con­seguir ver o que a repetição nos esconde.

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