Existem comportamentos e “verdades gerais” que são aceitos por uma parcela expressiva de todo agrupamento populacional. Qual a origem disso? Quase sempre é difícil de analisar ou quantificar. No entanto, em algumas situações há como intuir como tudo se processa para que a “verdade geral” ou comportamento passem incólumes pelas barreiras ou críticas de muitos, como quando são fatores que se repetem tanto que nos impedem de analisar de maneira apropriada.
É bom que seja assim, de outra forma todos os valores tão prezados ou mesmo os mais odiados, nossa cultura, não seriam possíveis de manter, porque todos os dias seriam questionados novamente, evitando o desenvolvimento humano. O que, certamente, não quer dizer ignorar tudo isso sempre, não criticar nenhum valor estabelecido, longe de mim sequer propor algo do tipo. Também é parte do desenvolvimento humano o questionamento, assim como a busca da mudança, mesmo com nossa incansável resistência a ela.
Mas assim como a mania por ditados populares se espalha, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. A repetição constante de informação, mesmo que inicialmente contestada, pode vir a se transformar em realidade para nossa percepção. Normalmente, para identificar a ocorrência é necessário estar fora do grupo que está acostumado à tal informação.
Alguns exemplos não farão mal. Notícias dessa semana dão conta de um aviso do poderoso conglomerado Google a um concorrente chinês desavisado (?) que usava como url o endereço www.goojje.com, além disso, o logo da empresa como na figura. Como é possível que alguém não saiba que o uso de algo tão descaradamente copiado de alguém de sucesso não seria notado, ainda mais pelo dono da marca? Acho que a resposta é óbvia, depois da repetição, muito bem demonstrada pela invasão de produtos chineses no mundo todo, com muitos deles cópias mal feitas de produtos conhecidos, nada mais natural que ocorresse algo do gênero no mundo virtual. Era apenas questão de tempo.
Outra notícia da semana, com assunto totalmente diverso, é a de que a última atualização do novíssimo Windows 7 estaria causando travamentos e problemas aos usuários. Até aí tudo bem, ou melhor, pior, ou como esperado. O que teria a ver com o imitador do Google na China? Novamente muito simples, a repetição sistemática que a maioria de nós (estou assumindo que seja um usuário de computador, ou como estaria aqui lendo isso? Ah! Deixa pra lá…) sofreu nos últimos anos, nos fez crer que seria natural e esperado que o sistema travasse após uma atualização, ou que a posição do suporte após a notícia se espalhar fosse a recomendação de desfazer o procedimento, mesmo que em alguns casos o sistema não inicie para que isso seja feito, entre outras que quase todo mundo já viu por aí.
Aí os flameboys entram para defender a amada Microsoft, ou os usuários de Linux para apoiar e acrescentar mais problemas à lista e falar o quanto este é melhor que aquele, como se algum deles ganhasse alguma coisa com isso. Não se trata disso, a observação é a respeito do que um usuário comum passa, como eu também passei e por isso conheço tanto os problemas como as desculpas, e como isso nos afeta de modo a não mais ver como isso é estranho. Hoje vejo como é absurdo porque passei a comparar o Windows com outros produtos e serviços oferecidos por outras empresas e até com outros produtos da própria Microsoft. É certo que não uso mais Windows, quando tenho escolha, como em casa, mas o Linux também tem seus problemas, o assunto é outro.
Voltando à comparação com outros produtos e serviços, se fosse uma TV, aceitaríamos facilmente que não funcionasse todos os dias, ou que demorasse a ligar, ou precisasse desligar e ligar depois de algumas operações, quem sabe sem motivo algum de vez em quando? Mas a TV é hardware, aceitaríamos com facilidade se fosse o serviço de TV a cabo? Com certeza é mais fácil se pensarmos em outros em que somos costumeiramente mal atendidos e fica mais familiar, como telefonia, bancos e por aí vai.
Assim como a quase vocação dos chineses para a cópia no mundo dos negócios, vinda provavelmente da repetição ilimitada de tal comportamento, muito também por razões de sobrevivência ou que quer que seja, não vem ao caso, o costume de achar que sistemas não precisam funcionar sempre nos levam a não atitude, à apatia. Difícil é enganar a mente e conseguir ver o que a repetição nos esconde.

