ENIAC: o primeiro computador

29 de novembro de 2009
By LonelySpooky
inventores

Os ide­al­izadores do projeto.

Se lhe per­guntarem um dia qual o com­puta­dor mais famoso do mundo, provavel­mente a resposta será “HAL 9000” ou algum outro dis­pos­i­tivo fic­tí­cio, mas, com certeza, se lhe dis­seram o nome ENIAC você saberá do que se trata ou terá certeza de já ter escu­tado essa palavra em algum lugar. Você pode nem perce­ber, mas o ENIAC é um desses raros casos em que um evento torna-se tão impor­tante que passa a fazer parte do sub-consciente cole­tivo. A impressão latente aqui, trazida pela palavra ENIAC, é de algo assom­brosa­mente mod­erno e poderoso, nunca antes visto e rev­olu­cionário. De fato, foi assim, mas já se pas­saram 63 anos desde que ele, o primeiro com­puta­dor do mundo, entrou em operação.

Nos anos 1940 o mundo estava em plena II Guerra Mundial e sabia-se que o exército mel­hor preparado vence­ria. Cal­cu­lar tra­jetórias balís­ti­cas era uma tarefa com­pli­cada que exi­gia con­hec­i­men­tos de física e matemática, além de cál­cu­los demor­a­dos feitos à mão. Era comum que hou­vessem equipes de matemáti­cos tra­bal­hando nos cál­cu­los 24 horas por dia na ten­ta­tiva de otimizar a pon­taria durante os ataques.

O pro­jeto de criar uma máquina que fosse capaz de realizar os cál­cu­los de artil­haria cen­te­nas de vezes mais rápido que as cal­cu­lado­ras eletro-mecânicas da época foi assi­nado, em seg­redo, pelo exército com a Escola de Engen­haria Elétrica Moore da Uni­ver­si­dade da Pen­sil­vã­nia em 5 de junho de 1943 e chamado de “Pro­jeto PX”, o desen­volvi­mento ficaria a cargo de John Mauchly (físico) e J. Pres­per Eck­ert (engen­heiro elétrico), que chefi­aram a equipe de engen­haria encar­regada de tornar a máquina em real­i­dade. Quase 3 anos mais tarde e depois de mais de US$ 500.000, em 14 de fevereiro de 1946, o pro­jeto, bati­zado ENIAC (Elec­tronic Numer­i­cal Inte­gra­tor And Com­puter), foi entregue, con­sid­er­ado pronto e fun­cional na Uni­ver­si­dade da Pen­sil­vâ­nia. A guerra, é claro, já havia terminado.

O Hard­ware envolvido

valvula

Uma válvula à vácuo

Na época a imprensa fez um grande estardal­haço diante da mar­avilha tec­nológ­ica con­ce­bida pelo gênio humano e rep­re­sen­tavam o ENIAC como um cére­bro gigante, capaz de superar o cére­bro humano em veloci­dade e inteligência.

O com­puta­dor, difer­ente dos nos­sos atu­ais, tra­bal­hava no sis­tema dec­i­mal em vez do binário, pesava 27 toneladas, media 5,50 m de altura e 25 m de com­pri­mento, ocu­pava 180 m² de área con­struída e per­mane­cia mon­tado sobre estru­turas metáli­cas com 2,75 m de altura. Era impres­sio­n­ante em todas as medi­das: 17.468 válvu­las à vácuo, 7.200 dio­dos de cristal, 1.500 relés, 70.000 resi­s­tores, 10.000 capac­i­tores e aprox­i­mada­mente 5 mil­hões de pon­tos de solda, devo­rando 175 KW de ener­gia. Dizem que quando o ENIAC era lig­ado as luzes da Filadél­fia piscavam.

eniac

Com pro­porções impres­sio­n­antes, o ENIAC deixou o mundo boquiaberto

Os dis­pos­i­tivos de entrada em nada se pare­ciam com os nos­sos con­fortáveis tecla­dos e mouses de hoje em dia: usavam cartões per­fura­dos da IBM, com capaci­dade de armazenar 8 números de 10 dígi­tos numa veloci­dade de até 125 cartões/min. Os resul­ta­dos dos cál­cu­los eram escritos em cartões per­fura­dos por uma gravadora IBM 405 e fre­quente­mente a sala onde o ENIAC oper­ava atin­gia mais que 50°C, mesmo com os condi­cionadores de ar sem­pre ligados.

Para atin­gir maior veloci­dade, a máquina fun­cionava em sis­tema mod­u­lar. O ENIAC, como um todo, era divi­dido em 20 unidades que podiam tra­bal­har inde­pen­den­te­mente, desmem­brando um prob­lema com­plexo em partes menores e pas­sando as soluções para o outro módulo ao fim da operação.

Toda vez que o ENIAC era lig­ado, pis­cavam as luzes da Filadélfia”

As veloci­dades médias de oper­ações com dois números acima de dez dígi­tos eram essas:

  • 5.000 somas ou subtrações
  • 357 mul­ti­pli­cações por segundo
  • 35 divisões ou raízes quadradas por segundo

Como o ENIAC pensava?

E é inter­es­sante apon­tar que o ENIAC só tra­bal­hava com somas (por isso tinha “Inte­gra­tor” no nome). Essa curiosi­dade é, de fato, ape­nas uma pro­priedade matemática usada pelos pro­gra­madores para per­mi­tir ao ENIAC com­putar sub­trações, mul­ti­pli­cações, divisões e raízes.

Não é muito difí­cil de entender:

Ele sabia somar:

2+2 = 4

Essa foi sim­ples, não?

Ele não sabia sub­trair, mas… :

4 – 2 = 4 + (-2)

Uma sub­tração nada mais é do que a soma de um número negativo.

Ele não sabia mul­ti­plicar, mas… :

4 x 2 = 2 + 2 + 2 + 2

Uma mul­ti­pli­cação nada mais é que somar o número uma quan­ti­dade X de vezes.

Ele não sabia cal­cu­lar raízes quadradas, mas… :

Bem, essa é meio com­pli­cada. Existe um teo­rema matemático que diz o seguinte:

\frac{a-1}{2}\leq\sqrt{m}\leq\frac{a+1}{2}

m é o número do qual quer­e­mos achar a raiz quadrada

a é a sima de todos os números ímpares que chegam mais próx­i­mos de

O que essa fór­mula quer dizer é o seguinte: a raiz quadrada de um número m está entre a soma de todos os números ímpares até chegar mais perto de m, mais ou menos 1, divi­dido por 2.

Não sacou? Com o exem­plo fica mais fácil: Vamos cal­cu­lar a raiz quadrada de um número maluco qual­quer. Vou escol­her o 1003.

Começamos a somar todos os números ímpares até chegar ou pas­sar um pouco de 1003:

1+3+5+7+…+59+61=961 —- Ainda falta 42 para 1003 <== Esse valor ainda não serve.

1+3+5+7+…+63=1024 —- Pas­sou 21 de 1003 <== esse pas­sou, um pouco. Vai servir.

Somando e somando e somando os números ímpares, vamos cada vez mais perto do nosso número (1003), mas deve­mos lem­brar que o valor tem que ser exato, ou pas­sar um pouco. Somando até 61 o valor ainda falta e, final­mente, no 63 o valor passa um pouco. 63 é nosso número mágico, logo, quer­e­mos achar a raiz quadrada de 1003, por isso sabe­mos que, na fór­mula de cima m = 1003 e acabamos de desco­brir que a = 63. Por­tanto, só para não esquecer:

\frac{63-1}{2}\leq\sqrt{1003}\leq\frac{63+1}{2}

Algu­mas partes são fáceis de resolver:

31\leq\sqrt{1003}\leq32

Desco­b­ri­mos que nossa raiz está entre 31 e 32. Já é uma boa coisa, mas, é necessário ser mais pre­ciso. Pense nos pobres sol­da­dos dis­parando morteiros nos próprios ali­a­dos por falta de pre­cisão nas con­tas… Pra achar mais algu­mas casas dec­i­mais, se você olhar um pouco antes, vai se lem­brar daquele valor que tes­ta­mos, mas que ainda ficou fal­tando 42 unidades para chegar ao 1003. Lembra-se?

1+3+5+7+…+59+61=961 —- Ainda falta 42 para 1003

O valor que usamos até agora foi o 63. Se você pegar essas unidades que ficaram fal­tando para 1003 (e que pen­samos que não iam servir para nada) e dividirmos pelo valor que serviu (63), teremos:

\frac{42}{63}=0.6667

Agora com­pare:

31+0.6667=31.6667

e

32+0.6667=32.6667

Nossa raiz quadrada está entre 31 e 32. Vamos usar essas casas dec­i­mais que acabamos de achar pra fazer um teste:

Qual desses dois números está entre 31 e 32?

Bem, o 32,6667 pas­sou de 32, então, é claro, não é ele. Vamos ati­rar nos­sas bom­bas con­fiando que a raiz quadrada de 1003 é 31,6667. Se você pegar sua cal­cu­ladora e ver o valor exato vai achar o seguinte: 31,670175244

Nada mal, heim?

Pro­gra­mando para o gigante

checando

A árdua tarefa de pro­gra­mar o gigante

Um dos maiores avanços trazi­dos pelo ENIAC, além da espan­tosa veloci­dade nos cál­cu­los era a pos­si­bil­i­dade de programá-lo de forma que exe­cu­tasse uma grande var­iedade de oper­ações com­plexas. Ele era capaz de loops, sub-rotinas e ram­i­fi­cações, mas o processo de “pro­gra­mação” era bas­tante com­plexo e con­sis­tia em tro­car cen­te­nas de fios de posição e mudar diver­sas chaves. A primeira tarefa para programá-lo era con­seguir o prob­lema a ser com­putado (escrito em lin­guagem humana) e transcrevê-lo, arte­sanal­mente, na lin­guagem dec­i­mal, que era inter­pre­tada pelo ENIAC. Ape­nas esta fase demor­ava diver­sas sem­anas. Depois do prob­lema tran­scrito, 6 pro­gra­mado­ras lev­avam dias mudando os cabos e as chaves que reg­ulavam a cor­rente elétrica (lembre-se que um com­puta­dor “pensa” através de pul­sos elétri­cos, mas, antiga­mente, era pre­ciso ajus­tar, man­ual­mente, como esses pul­sos seriam) e depois disso chegava a fase de “debug­ging” a procura de erros no código dec­i­mal ou no ajuste do equipa­mento. Ufa!

programadoras

Seis mul­heres cui­davam da programação

Infe­liz­mente para os pro­gra­madores, O ENIAC não pos­suía uma memória capaz de armazenar os pro­gra­mas, emb­ora essa memória fizesse parte dos planos orig­i­nais acabou não sendo imple­men­tada no pro­jeto. A não imple­men­tação do recurso sig­nifi­cava que, depois de exe­cu­ta­dos, os pro­gra­mas não podiam ser salvos e teriam que ser refeitos nova­mente caso hou­vesse neces­si­dade no futuro.

Con­fi­a­bil­i­dade do hard­ware e do software

cartao

Um cartão per­furado, do tipo usado pelo ENIAC para ler e escr­ever dados

O ENIAC era pro­je­tado para checar duas vezes todas os cál­cu­los que exe­cu­tava e lançava mão de inúmeros recur­sos matemáti­cos e estatís­ti­cos para obter resul­ta­dos mais pre­cisos. Ainda hoje, com com­puta­dores incom­par­a­vel­mente mais pos­santes a margem de erro existe e pre­cisa ser lev­ada em conta, por exem­plo, nos cál­cu­los mete­o­rológi­cos, na predição de movi­men­tos de galáx­ias e sim­u­lações estatís­ti­cas complexas.

O hard­ware, por outro lado, era fonte de grandes pre­ocu­pações, mesmo antes do iní­cio do fun­ciona­mento ofi­cial do com­puta­dor. Espe­cial­is­tas em eletrônica haviam pre­visto que as válvu­las à vácuo queimariam com tanta fre­quên­cia que o fun­ciona­mento da máquina seria imprat­icável: uma válvula pre­cis­aria ser tro­cada a cada 17 segundos.

Isso estava par­cial­mente cor­reto, já que os engen­heiros respon­sáveis pela manutenção do ENIAC perce­beram que a queima de válvu­las ocor­ria, geral­mente, durante o aque­c­i­mento (momen­tos logo após ser lig­ada) e durante o desliga­mento. A solução, sim­ples, era mantê-la lig­ada a maior quan­ti­dade de tempo pos­sível. Emb­ora fosse cor­rente a história de que tro­car as válvu­las no ENIAC era uma tarefa infind­ável, Eck­ert, numa entre­vista con­ce­dida em 1989 disse que a média era de que fosse necessário tro­car uma válvula a cada 2 dias e que esse processo não demor­ava mais que 15 min­u­tos. O maior período de fun­ciona­mento con­tínuo da máquina foi de 116 horas.

Encer­rando as ativi­dades e aposentadoria

hoje

Atual­mente, em exposição na Uni­ver­si­dade da Pensilvânia

Os tra­bal­hos do primeiro com­puta­dor do mundo con­tin­uaram até as 23h e 45 min do dia 2 de out­ubro de 1955, quando ele foi, ofi­cial­mente, aposen­tado. Sofreu, nesse meio tempo, diver­sos upgrades que poten­cializaram suas capaci­dades de cál­culo, mul­ti­pli­cando por 5 a veloci­dade de proces­sa­mento, mas é um fato que, mesmo antes de entrar em ativi­dade, o ENIAC já era con­sid­er­ado obso­leto mesmo por seus cri­adores, mas o tempo era curto e a pressa em ter van­tagem durante a guerra impe­dia que mel­ho­rias fos­sem feitas no pro­jeto orig­i­nal de 1943. Mesmo antes do lança­mento ofi­cial do ENIAC, seus cri­adores já estavam tra­bal­hando em seu suces­sor, chamado EDVAC (Elec­tronic Dis­crete Vari­able Auto­matic Com­puter) que tra­bal­haria com o código binário e teria, enfim, memória com capaci­dade de armazenar dados e programas.

Curiosa­mente, diver­sas empre­sas dis­putaram na justiça a patente sobre a invenção do ENIAC, mas em 1973 uma decisão fed­eral colo­cou a invenção do com­puta­dor eletrônico dig­i­tal em domínio público.

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6 Responses to ENIAC: o primeiro computador

  1. Raquel on 29 de novembro de 2009 at 20:49

    Ahhh se eu visse isso antes de desen­volver o meu TCC

  2. CLEDSON on 12 de fevereiro de 2010 at 03:41

    OI QUERO INFOMA QUE NA APOSENTADORIA DO ENIAC FOI EM 1955 NÃO EM 1855 OK

  3. teseu on 12 de fevereiro de 2010 at 16:09

    Putz, tinha certeza de já ter cor­rigido isso tem­pos atrás. Valeu Cledson.

  4. Reinaldo M. Neto on 26 de março de 2010 at 09:26

    Thanks, Man Good Text

  5. ronald on 24 de junho de 2010 at 19:02

    muito legal esse com­puta­dor q fOoi feito só para cal­cu­los
    e tambem p/ as guer­ras e isso é muito inter­es­sante para os
    alunos q estão cur­sando a infor­mat­ica isso é + um apren­dizado para ele
    ficar infor­mado e pronto para respoinder as per­gun­tas do professor.….….….….…kkkkkkkkk
    rsrsrrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr.….….….….…

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A Chameleon Sky

 
The sands of time are running out for the central star of this the Hourglass Nebula. With its nuclear fuel exhausted, this brief, spectacular, closing phase of a sun-like star's life occurs as its outer layers are ejected and its core becomes a cooling, fading white dwarf. In 1995, astronomers used the Hubble Space Telescope to make a series of images of planetary nebulae, including the one above. Here, delicate rings of colorful glowing gas (nitrogen-red, hydrogen-green, and oxygen-blue) outline the tenuous walls of the 'hourglass.' The unprecedented sharpness of Hubble's images revealed surprising details of the nebula ejection process and may resolve the outstanding mystery of the variety of complex shapes and symmetries of planetary nebulae. Image Credit: NASA, WFPC2, HST, R. Sahai and J. Trauger (JPL)
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