De onde surgem os fantasmas

28 de novembro de 2009
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O fogo-fátuo é um fenômeno natural que, provavelmente, explica os fantasmas.

350px-Tulilautta3Querendo ou não admi­tir, histórias de fan­tas­mas sem­pre povoaram o imag­inário humano, provo­cando uma mis­tura de ter­ror e fascínio, atraindo, quase mag­neti­ca­mente, a atenção do mais incré­dulo dos mor­tais. A figura fan­tas­magórica se apre­senta, quase invari­avel­mente, como uma enti­dade espec­tral, flu­tu­ante, etérea e antropomór­fica que surge em locais iso­la­dos, pref­er­en­cial­mente cemitérios ou bosques.

A expli­cação, no entanto, pode ser bem menos assus­ta­dora e sobre­nat­ural do que muitos gostariam (ou não).

Já se espec­ulava desde o final do século XVIII sobre as causas de um fenô­meno chamado fogo-fátuo. Esse fenô­meno é car­ac­ter­i­zado por uma chama azul, inodora e fria, que surge durante a noite em ter­renos como cemitérios e pân­tanos e que, acred­i­tam os cien­tis­tas, deu origem às histórias de fan­tas­mas e assombrações.

Ali­men­tando a imag­i­nação e as crenças dos povos durante sécu­los, o fogo-fátuo é a origem mais provável de diver­sas lendas e criat­uras fol­clóri­cas em cul­turas do mundo inteiro, como nos mostra essa pequena lista a seguir:

  • Hinky­punk: ocorre no fol­clore do sudoeste da Inglaterra. Um hinky­punk (pronuncia-se “rin­quipanc”) é um espírito malévolo que se diverte em atra­pal­har e até causar a morte de via­jantes que pas­sam por ter­ras remo­tas pela noite. Sua ação ocorre da seguinte forma: ao avis­tar um andar­ilho, o Hinky­punk acende sua tocha. O via­jante, cansado, fica feliz em ver a tocha acesa e corre em direção à luz. Ele supõe ser car­regada por uma pes­soa que está na mesma trilha, ser uma fogueira acesa em um local onde possa des­cansar um pouco, ser o seu des­tino ou então só vai até a tocha por curiosi­dade, mas quando percebe (tar­dia­mente, diga-se de pas­sagem), fora atraído direto para um pen­hasco, areia movediça ou uma vala — para a grande diver­são do Hinky­punk. Dizem que muitos espíri­tos semel­hantes vagueiam pela região rural da Inglaterra e o fol­clore inglês é repleto destas lendas. Talvez isso ocorra porque boa parte da zona rural da Inglaterra é ocu­pada por pân­tanos, bre­jos e charnecas e a trav­es­sia deste tipo de ter­reno é demasi­ada traiçoeira, sobre­tudo à noite. Em vez de cul­par as car­ac­terís­ti­cas geográ­fi­cas da região, sécu­los de tradição cul­param seres sobre­nat­u­rais e em muitos lugares da Inglaterra, são vis­tas luzes ao longe, sem que este­jam sendo car­regadas por ser algum. A ciên­cia diz que na ver­dade estas luzes são cau­sadas pela com­bustão espon­tânea de gases do pân­tano, e o que estas pes­soas avis­tam não é mais do que o fogo-fátuo.
  • Pwca: pre­sente no fol­clore galês. O Pwca, uma criatura com cabeça de um corvo sor­ri­dente, cauda de macaco e corpo de fumaça, vive em despen­hadeiros, onde gosta de atrair pes­soas com música vinda de um vio­lino que car­rega. Quando vê sua vítima, o Pwca lhe dá con­sel­hos enganadores, ludib­riando e enganando a pes­soa, que se perde nas col­i­nas e campos.
  • Boi­tatá: Uma gigan­tesca cobra de fogo do fol­clore brasileiro, avis­tadas em bre­jos, onde espanta e come pescadores incau­tos que prej­u­dicam a vida dos peixes e de sua lagoa.
  • Kelpie: é a alma de um ani­mal trans­for­mada em um cav­alo, o Kelpie é um cav­alo prateado que vive em grandes lagos e que só aparece em noites de luar. Quando aparece para uma pes­soa, o Kelpie se mostra gen­til, per­mitindo que a pes­soa o cav­algue, até ele voltar para seu lar e matar por afoga­mento sua montaria.
  • Hito­dama (人魂, ひとだま): do fol­clore japonês. Quando alguém morre, sua alma sai do corpo com uma forma ima­te­r­ial e glob­u­lar, uma esfera bril­hante que se chama hito­dama. Segundo essas lendas, a pes­soa pode tomá-la para si antes que vá para o outro mundo. Cos­tuma ser car­regada por ani­mais como pás­saros e raposas.

A causa, entre­tanto, não tem nada de espir­i­tual e está lig­ada sim­ples­mente à química.

O fogo-fátuo sem­pre aparece em ter­renos reple­tos de matéria orgânica em decom­posição. Ani­mais mor­tos, apo­drecendo em meio à veg­e­tação, cadáveres enter­ra­dos a baixa pro­fun­di­dade, bichos sob lagos pantanosos…

Todos esses cor­pos, no processo de decai­mento, exalam gases inflamáveis, como metano, gás sulfí­drico, hidrogênio fos­forado e amô­nia. O hidrogênio fos­forado, do grupo das fos­fi­nas, tem a for­mula PH3 e é inflamável à tem­per­atura ambi­ente quando em con­tato com o oxigênio. Ao entrar em con­tato com o ar, a fos­fina oxida-se numa reação exotér­mica, for­mando um óxido de fos­fina. Ao incendiar-se, a fos­fina serve de estopim e queima o metano nas proximidades.

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A chama resul­tante é fria e não causa dano às plan­tas em redor; paira lenta­mente a alguns cen­tímet­ros da fonte e tem um brilho azu­lado (quase como uma bolha flu­tu­ante). Teste­munhas relatam que a chama espec­tral é capaz de perseguir aque­les que a avis­tam, mas isso é expli­cado pela lev­eza da chama de fós­foro, que acom­panha até o mais suave deslo­ca­mento de ar pro­duzido pelas teste­munhas em fuga.

O fenô­meno foi repro­duzido em lab­o­ratório pelos quími­cos ital­ianos Luigi Gar­laschelli e Paolo Boschetti1, com­pro­vando que uma chama pro­duzida por gases de mate­ri­ais orgâni­cos em decom­posição arde em tem­per­at­uras muito mais baixas que as chamas comuns e que a car­ac­terís­tica tran­siente de tais chamas tam­bém é uma con­se­quên­cia da com­bustão dos gases.

Will-O'-The-Wisp

Oração para invo­car o fogo-fátuo (Will-o’-the-Wisp em inglês)

Ape­sar de muitas descober­tas cien­tí­fi­cas reforçarem ser o fogo-fátuo uma com­bustão de gases, até os dias de hoje não há prova defin­i­tiva pela difi­cul­dade de obser­var, cien­tifi­ca­mente, o fenô­meno e de levar adi­ante estu­dos mais com­ple­tos a respeito. Out­ras teo­rias pop­u­lares tam­bém atribuem as car­ac­terís­ti­cas do fogo-fátuo ao brilho nat­ural dos sais de cál­cio (prove­niente dos ossos), à bio­lu­mi­nescên­cia de fun­gos ou que as chamas são piezoelet­ri­ca­mente for­madas por ter­renos capazes de gerar elet­ri­ci­dade quando sub­meti­dos a algum tipo de stress mecânico2, 3.

O único ponto incon­testável acerca do fogo-fátuo é que, no meio de uma noite escura, as pes­soas con­tin­uarão a sen­tir calafrios na espinha ao se depararem com uma errante chama azul que flu­tua sobre a super­fí­cie de um lago pan­tanoso ou sobre uma cova rasa onde des­cansa o cadáver de um ser humano.

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  1. http://luigi.garlaschelli.googlepages.com/WILLOWISexperiments.pdf
  2. Persinger, M.A. (1993). Per­cep­tual and Motor Skills. “Geo­phys­i­cal vari­ables and behav­ior: LXXIV. Man-made fluid injec­tions into the crust and reports of lumi­nous phe­nom­ena (UFO Reports) — is the strain field an aseis­mi­cally prop­a­gat­ing hydro­log­i­cal pulse?”
  3. Derr, J.S. (1993). Per­cep­tual and Motor Skills. “Sea­sonal hydro­log­i­cal load and regional lumi­nous phe­nom­ena (UFO reports) within river sys­tems: the Mis­sis­sippi Val­ley test.”
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