O fogo-fátuo é um fenômeno natural que, provavelmente, explica os fantasmas.
Querendo ou não admitir, histórias de fantasmas sempre povoaram o imaginário humano, provocando uma mistura de terror e fascínio, atraindo, quase magneticamente, a atenção do mais incrédulo dos mortais. A figura fantasmagórica se apresenta, quase invariavelmente, como uma entidade espectral, flutuante, etérea e antropomórfica que surge em locais isolados, preferencialmente cemitérios ou bosques.
A explicação, no entanto, pode ser bem menos assustadora e sobrenatural do que muitos gostariam (ou não).
Já se especulava desde o final do século XVIII sobre as causas de um fenômeno chamado fogo-fátuo. Esse fenômeno é caracterizado por uma chama azul, inodora e fria, que surge durante a noite em terrenos como cemitérios e pântanos e que, acreditam os cientistas, deu origem às histórias de fantasmas e assombrações.
Alimentando a imaginação e as crenças dos povos durante séculos, o fogo-fátuo é a origem mais provável de diversas lendas e criaturas folclóricas em culturas do mundo inteiro, como nos mostra essa pequena lista a seguir:
- Hinkypunk: ocorre no folclore do sudoeste da Inglaterra. Um hinkypunk (pronuncia-se “rinquipanc”) é um espírito malévolo que se diverte em atrapalhar e até causar a morte de viajantes que passam por terras remotas pela noite. Sua ação ocorre da seguinte forma: ao avistar um andarilho, o Hinkypunk acende sua tocha. O viajante, cansado, fica feliz em ver a tocha acesa e corre em direção à luz. Ele supõe ser carregada por uma pessoa que está na mesma trilha, ser uma fogueira acesa em um local onde possa descansar um pouco, ser o seu destino ou então só vai até a tocha por curiosidade, mas quando percebe (tardiamente, diga-se de passagem), fora atraído direto para um penhasco, areia movediça ou uma vala — para a grande diversão do Hinkypunk. Dizem que muitos espíritos semelhantes vagueiam pela região rural da Inglaterra e o folclore inglês é repleto destas lendas. Talvez isso ocorra porque boa parte da zona rural da Inglaterra é ocupada por pântanos, brejos e charnecas e a travessia deste tipo de terreno é demasiada traiçoeira, sobretudo à noite. Em vez de culpar as características geográficas da região, séculos de tradição culparam seres sobrenaturais e em muitos lugares da Inglaterra, são vistas luzes ao longe, sem que estejam sendo carregadas por ser algum. A ciência diz que na verdade estas luzes são causadas pela combustão espontânea de gases do pântano, e o que estas pessoas avistam não é mais do que o fogo-fátuo.
- Pwca: presente no folclore galês. O Pwca, uma criatura com cabeça de um corvo sorridente, cauda de macaco e corpo de fumaça, vive em despenhadeiros, onde gosta de atrair pessoas com música vinda de um violino que carrega. Quando vê sua vítima, o Pwca lhe dá conselhos enganadores, ludibriando e enganando a pessoa, que se perde nas colinas e campos.
- Boitatá: Uma gigantesca cobra de fogo do folclore brasileiro, avistadas em brejos, onde espanta e come pescadores incautos que prejudicam a vida dos peixes e de sua lagoa.
- Kelpie: é a alma de um animal transformada em um cavalo, o Kelpie é um cavalo prateado que vive em grandes lagos e que só aparece em noites de luar. Quando aparece para uma pessoa, o Kelpie se mostra gentil, permitindo que a pessoa o cavalgue, até ele voltar para seu lar e matar por afogamento sua montaria.
- Hitodama (人魂, ひとだま): do folclore japonês. Quando alguém morre, sua alma sai do corpo com uma forma imaterial e globular, uma esfera brilhante que se chama hitodama. Segundo essas lendas, a pessoa pode tomá-la para si antes que vá para o outro mundo. Costuma ser carregada por animais como pássaros e raposas.
A causa, entretanto, não tem nada de espiritual e está ligada simplesmente à química.
O fogo-fátuo sempre aparece em terrenos repletos de matéria orgânica em decomposição. Animais mortos, apodrecendo em meio à vegetação, cadáveres enterrados a baixa profundidade, bichos sob lagos pantanosos…
Todos esses corpos, no processo de decaimento, exalam gases inflamáveis, como metano, gás sulfídrico, hidrogênio fosforado e amônia. O hidrogênio fosforado, do grupo das fosfinas, tem a formula PH3 e é inflamável à temperatura ambiente quando em contato com o oxigênio. Ao entrar em contato com o ar, a fosfina oxida-se numa reação exotérmica, formando um óxido de fosfina. Ao incendiar-se, a fosfina serve de estopim e queima o metano nas proximidades.
A chama resultante é fria e não causa dano às plantas em redor; paira lentamente a alguns centímetros da fonte e tem um brilho azulado (quase como uma bolha flutuante). Testemunhas relatam que a chama espectral é capaz de perseguir aqueles que a avistam, mas isso é explicado pela leveza da chama de fósforo, que acompanha até o mais suave deslocamento de ar produzido pelas testemunhas em fuga.
O fenômeno foi reproduzido em laboratório pelos químicos italianos Luigi Garlaschelli e Paolo Boschetti1, comprovando que uma chama produzida por gases de materiais orgânicos em decomposição arde em temperaturas muito mais baixas que as chamas comuns e que a característica transiente de tais chamas também é uma consequência da combustão dos gases.
Apesar de muitas descobertas científicas reforçarem ser o fogo-fátuo uma combustão de gases, até os dias de hoje não há prova definitiva pela dificuldade de observar, cientificamente, o fenômeno e de levar adiante estudos mais completos a respeito. Outras teorias populares também atribuem as características do fogo-fátuo ao brilho natural dos sais de cálcio (proveniente dos ossos), à bioluminescência de fungos ou que as chamas são piezoeletricamente formadas por terrenos capazes de gerar eletricidade quando submetidos a algum tipo de stress mecânico2, 3.
O único ponto incontestável acerca do fogo-fátuo é que, no meio de uma noite escura, as pessoas continuarão a sentir calafrios na espinha ao se depararem com uma errante chama azul que flutua sobre a superfície de um lago pantanoso ou sobre uma cova rasa onde descansa o cadáver de um ser humano.
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- http://luigi.garlaschelli.googlepages.com/WILLOWISexperiments.pdf ↩
- Persinger, M.A. (1993). Perceptual and Motor Skills. “Geophysical variables and behavior: LXXIV. Man-made fluid injections into the crust and reports of luminous phenomena (UFO Reports) — is the strain field an aseismically propagating hydrological pulse?” ↩
- Derr, J.S. (1993). Perceptual and Motor Skills. “Seasonal hydrological load and regional luminous phenomena (UFO reports) within river systems: the Mississippi Valley test.” ↩


