O dia em que Deus saiu da ciência

5 de novembro de 2009
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Friedrich_Wöhler_StichComo estu­dante de química, tam­bém sem­pre fui fasci­nado pela parte histórica que envolve muitas das descober­tas desse campo da ciên­cia inter­es­san­tís­simo. Alguns acon­tec­i­men­tos são tão dramáti­cos ou expres­sivos que tomam pro­porções e ele­men­tos dig­nos dos mel­hores con­tos literários. Entre esses acon­tec­i­men­tos, um que jamais saiu da minha cabeça foi a Sín­tese de Wöller, ou, como gosto de chamar, “o dia em que Deus saiu da ciência”.

O ano é 1828, nessa época a religião e a igreja não são mais som­bras tão ameaçado­ras quanto out­rora e a ciên­cia já mostra segu­rança para se mover com mais liber­dade e menos amar­ras de dogmas.

Já se havia apren­dido muito em 1828, mas uma bar­reira aparente­mente intransponível deix­ava bem claro que a ciên­cia não podia e nem pode­ria explicar fenô­menos que somente podiam ser atribuí­dos a “forças incom­preen­síveis”. Em out­ras palavras, o “vital­ismo” — como era chamado – acred­i­tava que a ciên­cia só seria capaz de preparar com­pos­tos inorgâni­cos e que a sín­tese de com­pos­tos orgâni­cos só era pos­sível em pre­sença da ener­gia vital: se o com­posto é orgânico, não pode­ria ser preparado em lab­o­ratório pelo mesmo motivo que a vida, em si, não pode ser ger­ada em laboratório.

De fato, até 1828, com­pos­tos orgâni­cos vin­ham sendo estu­da­dos, mas sem­pre sin­te­ti­za­dos a par­tir de for­mas nat­u­rais (plan­tas, ani­mais, seres humanos…) e essa evidên­cia empírica apoiava forte­mente a teo­ria vitalista.

Desde 1823 o médico/químico alemão Friedrich Wöh­ler vinha estu­dando os sais de cianato (CN-), mas suas intenções não estavam rela­cionadas a der­rubar o vital­ismo e sin­te­ti­zar um pro­duto orgânico em lab­o­ratório; em vez disso,  Wöh­ler estava inter­es­sado nos estu­dos da iso­me­ria, que era assunto rel­a­ti­va­mente novo na época. De maneira resum­ida,  iso­me­ria estuda com­pos­tos que têm a mesma fór­mula, mas apre­sen­tam duas ou mais estru­turas e com­por­ta­men­tos muito diferentes.

Aqui temos três compostos químicos que são isômeros: os mesmos átomos em posições diferentes

Isômeros: com­pos­tos com os mes­mos átomos, mas em arran­jos diferentes.

Wöh­ler vinha ten­tando pro­duzir cianeto de amô­nia (H2NCN) pelo trata­mento de cianeto de prata (AgCN) com cloreto de amô­nia aqu­oso (H2NCl), mas a reação, em vez do cianeto de amô­nia esper­ado, pro­duzira um pó cristal­ino branco que não tinha as car­ac­terís­ti­cas esperadas.

O cam­inho nat­ural foi ten­tar uma outra abor­dagem e, dessa vez, Wöh­ler exper­i­men­tou rea­gir cianato de chumbo Pb(OCN)2 com hidróx­ido de amô­nia (NH2OH), obtendo o mesmo pó branco, só que em um maior grau de pureza, o que per­mi­tiu sua análise.

Pb(<span class=NCO)_2 + 2NH_3 + 2H_2O \rightarrow Pb(OH)_2 + 2NH_4(NCO)" />
O cianato de chumbo reage com a amô­nia, pro­duzindo cianato de amônio…

<span class=NH_4(NCO) \rightarrow NH_3 + HNCO \leftrightarrow (NH_2)_2CO" />
Que se decom­põe em uréia.

Desde 1799 já se con­hecia a uréia e análises exaus­ti­vas provaram que o pó branco obtido por Wöller tinha a mesma com­posição e as mes­mas pro­priedades da uréia (que, segundo o vital­ismo, só podia ser preparada medi­ante a força vital).

Ironi­ca­mente, Wöller não deu muita importân­cia para o fato de ter sin­te­ti­zado um com­posto orgânico; suas atenções estavam com­ple­ta­mente voltadas para o estudo da iso­me­ria que con­seguira obser­var enquanto, sem querer, sin­te­ti­zava, pela primeira vez, um com­posto orgânico em laboratório.

Uréia

Uréia, o primeiro com­posto orgânico sin­te­ti­zado arti­fi­cial­mente em 1828 por Friedrich Woehler, obtido a par­tir do aque­c­i­mento do cianato de amônio

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7 Responses to O dia em que Deus saiu da ciência

  1. LONELYSPOOKY on 5 de novembro de 2009 at 11:18

    Reli­giosos, não inter­pretem o título literalmente.

  2. MYTHUS on 5 de novembro de 2009 at 11:58

    Já perce­beu o quanto a religião e o divino têm espaço na mente humana? Seja para con­fir­mar a existên­cia, seja para refutá-la. Eu não con­heço abso­lu­ta­mente nen­huma pes­soa que diga que não tem nen­huma posição definida sobre o assunto. O máx­imo que já ouvi alguém dizer que era indifer­ente e que não se impor­tava com o tema foi: “se Deus existe? Não sei. Não dá pra saber, né?”. Con­tudo, pouco tempo depois, a mesma pes­soa disse: “se Deus exi­s­tir, defin­i­ti­va­mente ele não inter­fere na nossa vida”. Ora, se essa pes­soa fosse real­mente indifer­ente ao tema ele diria que não saberia quando ou se Deus já inter­feriu na nossa vida.

    • LONELYSPOOKY on 5 de novembro de 2009 at 13:03

      Eu sou do tipo que vê pouca prob­a­bil­i­dade na existên­cia de Deus, tão pouca que nem me pre­ocupo muito sobre o assunto já que, além de achar pouco provável que ele exista, tam­bém acho que não faz nada que infuencie.

  3. TESEU on 5 de novembro de 2009 at 16:48

    Real­mente, as suces­si­vas ten­ta­ti­vas de negação só mostram q mesmo para quem ñ acred­ita (ou ñ quer acred­i­tar, em muitos casos) a importân­cia é grande.
    Os ñ reli­giosos ñ se ofendam.

  4. MYTHUS on 5 de novembro de 2009 at 18:10

    Por que eu vejo no feed a resposta do Hen­rique, o número de comen­tários está contabilizando-a, mas não aparece aqui na página?

    Hen­rique: o seu post é prova de que você se importa sobre o assunto. Quer ver um assunto que você não se importa? O risco de extinção do vaga-lume por causa da forte lumi­nosi­dade das cidades, ou a evolução do Dire­ito Penal Mín­imo, ou ainda, sobre o cresci­mento do tur­ismo de ter­ceira idade nas cidades do nordeste. Mas sobre Deus, você não está nem um pouco alheio ao assunto.

  5. TESEU on 5 de novembro de 2009 at 18:36

    Estranho mesmo, deve ser mar­cação com ele por causa do título, vai ver algum desen­volve­dor do word­press é religioso.

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