Como estudante de química, também sempre fui fascinado pela parte histórica que envolve muitas das descobertas desse campo da ciência interessantíssimo. Alguns acontecimentos são tão dramáticos ou expressivos que tomam proporções e elementos dignos dos melhores contos literários. Entre esses acontecimentos, um que jamais saiu da minha cabeça foi a Síntese de Wöller, ou, como gosto de chamar, “o dia em que Deus saiu da ciência”.
O ano é 1828, nessa época a religião e a igreja não são mais sombras tão ameaçadoras quanto outrora e a ciência já mostra segurança para se mover com mais liberdade e menos amarras de dogmas.
Já se havia aprendido muito em 1828, mas uma barreira aparentemente intransponível deixava bem claro que a ciência não podia e nem poderia explicar fenômenos que somente podiam ser atribuídos a “forças incompreensíveis”. Em outras palavras, o “vitalismo” — como era chamado – acreditava que a ciência só seria capaz de preparar compostos inorgânicos e que a síntese de compostos orgânicos só era possível em presença da energia vital: se o composto é orgânico, não poderia ser preparado em laboratório pelo mesmo motivo que a vida, em si, não pode ser gerada em laboratório.
De fato, até 1828, compostos orgânicos vinham sendo estudados, mas sempre sintetizados a partir de formas naturais (plantas, animais, seres humanos…) e essa evidência empírica apoiava fortemente a teoria vitalista.
Desde 1823 o médico/químico alemão Friedrich Wöhler vinha estudando os sais de cianato (CN-), mas suas intenções não estavam relacionadas a derrubar o vitalismo e sintetizar um produto orgânico em laboratório; em vez disso, Wöhler estava interessado nos estudos da isomeria, que era assunto relativamente novo na época. De maneira resumida, isomeria estuda compostos que têm a mesma fórmula, mas apresentam duas ou mais estruturas e comportamentos muito diferentes.
Wöhler vinha tentando produzir cianeto de amônia (H2NCN) pelo tratamento de cianeto de prata (AgCN) com cloreto de amônia aquoso (H2NCl), mas a reação, em vez do cianeto de amônia esperado, produzira um pó cristalino branco que não tinha as características esperadas.
O caminho natural foi tentar uma outra abordagem e, dessa vez, Wöhler experimentou reagir cianato de chumbo Pb(OCN)2 com hidróxido de amônia (NH2OH), obtendo o mesmo pó branco, só que em um maior grau de pureza, o que permitiu sua análise.
NCO)_2 + 2NH_3 + 2H_2O \rightarrow Pb(OH)_2 + 2NH_4(NCO)" />
O cianato de chumbo reage com a amônia, produzindo cianato de amônio…
NH_4(NCO) \rightarrow NH_3 + HNCO \leftrightarrow (NH_2)_2CO" />
Que se decompõe em uréia.
Desde 1799 já se conhecia a uréia e análises exaustivas provaram que o pó branco obtido por Wöller tinha a mesma composição e as mesmas propriedades da uréia (que, segundo o vitalismo, só podia ser preparada mediante a força vital).
Ironicamente, Wöller não deu muita importância para o fato de ter sintetizado um composto orgânico; suas atenções estavam completamente voltadas para o estudo da isomeria que conseguira observar enquanto, sem querer, sintetizava, pela primeira vez, um composto orgânico em laboratório.

Uréia, o primeiro composto orgânico sintetizado artificialmente em 1828 por Friedrich Woehler, obtido a partir do aquecimento do cianato de amônio

Religiosos, não interpretem o título literalmente.
Já percebeu o quanto a religião e o divino têm espaço na mente humana? Seja para confirmar a existência, seja para refutá-la. Eu não conheço absolutamente nenhuma pessoa que diga que não tem nenhuma posição definida sobre o assunto. O máximo que já ouvi alguém dizer que era indiferente e que não se importava com o tema foi: “se Deus existe? Não sei. Não dá pra saber, né?”. Contudo, pouco tempo depois, a mesma pessoa disse: “se Deus existir, definitivamente ele não interfere na nossa vida”. Ora, se essa pessoa fosse realmente indiferente ao tema ele diria que não saberia quando ou se Deus já interferiu na nossa vida.
Eu sou do tipo que vê pouca probabilidade na existência de Deus, tão pouca que nem me preocupo muito sobre o assunto já que, além de achar pouco provável que ele exista, também acho que não faz nada que infuencie.
Realmente, as sucessivas tentativas de negação só mostram q mesmo para quem ñ acredita (ou ñ quer acreditar, em muitos casos) a importância é grande.
Os ñ religiosos ñ se ofendam.
Por que eu vejo no feed a resposta do Henrique, o número de comentários está contabilizando-a, mas não aparece aqui na página?
Henrique: o seu post é prova de que você se importa sobre o assunto. Quer ver um assunto que você não se importa? O risco de extinção do vaga-lume por causa da forte luminosidade das cidades, ou a evolução do Direito Penal Mínimo, ou ainda, sobre o crescimento do turismo de terceira idade nas cidades do nordeste. Mas sobre Deus, você não está nem um pouco alheio ao assunto.
Estranho mesmo, deve ser marcação com ele por causa do título, vai ver algum desenvolvedor do wordpress é religioso.