Gosto não se discute

14 de junho de 2009
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O título foi uma iro­nia pois, sim, com­pan­heiro, gosto se dis­cute e mau gosto é coisa para lamentar.

Recen­te­mente deliciei-me com mais uma crônica escrita (e inter­pre­tada) pelo genal escritor/neurologista Salomão Schwartz­man onde o bom doutor ironizava de forma pol­ida o extremo mau gosto dos nos­sos dias. Uma frase da crônica, no entanto, fez soar na minha per­cepção aque­les acordes per­feitos que só uma epi­fa­nia pode fazer vibrar: “bom gosto é algo que se aprende e só é pos­sível ter noção do que é bom gosto depois de adquirir bagagem cul­tural sufi­ciente para reconhecê-lo”.

Sem­pre me culpei por não ter nascido com o dom da hipocrisia, de não poder sor­rir e devo­rar com avidez mesmo o prato menos palatável ou de não tratar com uma boa e velha conivên­cia civ­i­lizada os ver­dadeiros aten­ta­dos à arte que diluíram a arte de ver­dade. Em vez disso, nasci munido da má edu­cação de afas­tar o prato, de excla­mações indig­nadas e de um bom par de per­nas, capaz de me trans­portar para longe das fontes do meu incômodo.

As coisas “boas” hoje em dia são feitas para uma pop­u­lação medíocre e (que deus me per­doe) mon­tadas de modo a serem tão medíocres quanto aquilo que a pop­u­lação exige: o pão e o circo que é ofer­e­cido à maio­ria de cegos incon­scientes parece feito de uma sub­stân­cia insossa, indus­tri­al­izada e feita às pres­sas para aten­der (e vender) em massa a uma horda de imbe­cis que nasce a cada dia. Muitas dessas pes­soas, dessa nova ger­ação que já nasceu afo­gada em todo esse lixo, irá crescer acred­i­tando que ISSO é a ver­dadeira arte e, acred­ite, con­seguirão fazer pior mesmo a por­caria de agora.

Esses são os efeitos do pro­gresso — dizem alguns — e que agora é a hora de fazer mais e pen­sar menos e que tudo pre­cisa ser assim, rápido, prático, com pou­cas lin­has, poucos acordes, pou­cas cores, tudo para não forçar muito o cére­bro em detal­hes inúteis pois é pre­ciso dar à alma de mundo gente pelo menos o grude que a impede de sumir por com­pleto. Basi­ca­mente, os padrões estão caindo e o que era ruim antes, quando a arte e o entreten­i­mento não eram tão pas­teur­iza­dos, hoje em dia já é bom e acla­mado: esta­mos virando um bando de sub­nu­tri­dos que não têm sequer a vaga idéia do que é uma refeição.

Vamos fazer comparações?

Na lit­er­atura em poesia:

Pro­curei no Recanto das Letras o texto mais lido da semana.

Soneto

Alma minha gen­til, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
É vivo eu cá na terra sem­pre triste.

Se lá no assento etéreo , onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remé­dio, de perder-te

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te.
Quão cedo de meus olhos te levou.
VOCÊ

Você des­per­tou o amor em mim,
quando me amou docemente.
Acordou-me do sono profundo,
ressuscitou-me ple­na­mente.

É minha fonte de prazer
e tam­bém meu bem querer.
Serei sua fiel amante
pois minha luz vem de você.

Mesmo que o tempo passe
sua lem­brança não apagará.

Lem­brarei dos seus carinhos
e do seu amor a me guiar
ao longe… nos caminhos …

Obri­gada meu amor,
eu lhe ofer­eço este carinho.

Texto de Luís de Camões

Texto con­tem­porâ­neo: Estrela Matutina – Recanto das Letras

Na lit­er­atura em prosa:

Tre­cho de “Os Mis­eráveis” de Vic­tor Hugo – Descrevendo Jean Val­jean (o protagonista)

Tre­cho de “O Código Da Vinci” de Dan Brown – Descrevendo Robert Lang­don (o protagonista)

Era um homem ainda no vigor da idade, de estatura medi­ana e robusto. Pode­ria ter, quando muito, quarenta e seis ou quarenta e oito anos. Escondia-lhe parte do rosto, crestado pelo sol e a escor­rer em suor, um boné de pala de couro A camisa, de linho gros­seiro e amare­lado, aper­tada no pescoço por uma pequena âncora de prata, deixava-lhe a descoberto o peito cabe­ludo; tra­java calças de cotim azul, muito vel­has, coçadas, bran­cas num joelho e rotas no outro, uma esfar­ra­pada blusa parda, tendo num dos cotove­los um remendo de pano verde, cosido com cordel. Servia-lhe de gra­vata um lenço tor­cido, enro­lado em volta do pescoço. Calçava sap­atos for­ra­dos, sem meias, e trazia às costas uma volu­mosa mochila de sol­dado, em bom estado e muito aper­tada, e na mão um enorme cajado nodoso. Afora isto, trazia a barba crescida, os cabe­los eram raros e eriça­dos, mas pare­cia não terem sido cor­ta­dos havia muito tempo.

Os olhos azuis de Lang­don, geral­mente aguça­dos, pare­ciam embaça­dos e fun­dos naquela noite. Uma barba escura por fazer lhe envolvia toda a mandíbula forte e o queixo com cov­inha. Em torno das têm­po­ras, fios grisal­hos de cabelo avançavam, pen­e­trando na sua cabeleira negra espessa. Emb­ora suas cole­gas insis­tis­sem que o grisalho só acen­tu­ava seu charme int­elec­tual, Lang­don não se deix­ava enga­nar. “Se ao menos a Boston Mag­a­zine pudesse me ver agora”, pen­sava. No mês ante­rior, para grande con­strang­i­mento de Lang­don, o per­iódico Boston Mag­a­zine o havia incluído entre uma das dez pes­soas mais estim­u­lantes da cidade — honra dúbia que o tornou objeto de infind­ável goza­ção por parte de seus cole­gas de Harvard.

E, pas­mem, houve pes­soas ova­cio­nando a “genial­i­dade” do escritor do Código Da Vinci. Não aguentei sequer chegar à metade porque o livro pare­cia escrito por um adolescente.

Na escul­tura:

Com­pare uma obra de Michae­lan­gelo com uma do reno­mado escul­tor romeno Con­stan­tin Brâncuşi.

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Na pin­tura:

Até arte feita por bichos é ven­dida (e com­prada) por seres humanos.

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Na música:

Acabou-se, tam­bém, a música. Hoje em dia se o seu som não servir para bal­ançar a bunda ou bater coxa nem para expres­sar uma revolta ridícula de filhinhos-de-papai não fará sucesso. Não é pre­ciso saber can­tar (como provam Pitty e out­ros da mesma safra) e os shows viraram uma con­cen­tração ridícula de artis­tas inex­pres­sivos com um público zumbi pré-programado.

Com­pare Marisa Monte can­tando “Cére­bro eletrônico” e Pitty can­tando “Admirável chip novo”

Marisa Monte

httpv://www.youtube.com/watch?v=aXJ_Ub1xbhw&feature=related

Pitty

A resistên­cia, caro leitor, concentra-se em ilhas, pequenos gru­pos de pes­soas que se recusam a beber da água suja que é ven­dida às mas­sas e procura, mesmo que seja mais difí­cil, beber da fonte pura e cristalina da boa arte. Depois – e só depois – de adquirir bagagem cul­tural sufi­ciente uma pes­soa pode dis­cernir o que é arte e o que não é. Torna-se pos­sível, então, dis­cu­tir se Eric Clap­ton é mel­hor (ou pior) que Pink Ployd, se a Legião Urbana vence­ria o NX Zero na por­rada ou qual ator seria mel­hor para o filme Y.

Mas, o que acon­tece se mesmo depois de adquirir bagagem cul­tural eu ainda gostar do Mole­jão e do Babado Novo? Nesse caso, leitor, sinto muito infor­mar, mas você tem mau gosto.

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10 Responses to Gosto não se discute

  1. Teseu on 16 de junho de 2009 at 14:47

    A entropia é uni­ver­sal, nada está tão ruim que não possa piorar.

    Em todas as áreas de nosso con­hec­i­mento isso pode ser visto, na área social não seria difer­ente, a des­or­dem e o caos são o nosso futuro.

    Alguns acham que isso é pes­simismo, acho que é ape­nas uma questão de aceitar a real­i­dade. Quem me con­hece sabe que não sou pes­simista, de vez em quando um pouco aco­modado (uma vez que gosto de estar do lado da solução e não do prob­lema, mas isso é outro assunto), o que acon­tece é que con­vivo com a real­i­dade e sobre­vivo a ela.

    Aí alguém pode­ria dizer que sou muito apático ou vivo em deses­pero, nem um nem outro. Aceito a real­i­dade, tra­balho para mudar o que estiver ao meu alcance e no mais me adapto. Acha com­pli­cado? Tem gente que mora no Rio de Janeiro e acha mar­avil­hoso, isso sim é dureza…

  2. Mythus on 16 de junho de 2009 at 15:16

    Lamen­tável você não gostar de Pitty :^p

    Agora vejamos num ponto de vista mais soci­ológico. Como foi definida a cul­tura de “qual­i­dade”? Quem pode decidir se Pata­tiva do Assaré é mais (ou menos) pro­fundo (cul­tural­mente) que Camões?

    Entre Andy Warhol e Picasso, quem foi um artista mais con­sciente do seu trabalho?

    O próprio dis­curso sobre o que é cul­tura ou sobre sua qual­i­dade é algo de difí­cil con­cepção. Se a cul­tura for elit­ista e não con­seguir projetar-se no tempo para as ger­ações futuras e mor­rer no esquec­i­mento, terá algum valor? Se a cul­tura de massa perpetuar-se no tempo con­tin­u­a­mente através das ger­ações, como as canti­gas de roda e out­ras man­i­fes­tações fol­clóri­cas, dev­e­riam ser menosprezadas?

    Existe um tra­balho antropológico muitís­simo inter­es­sante sendo desen­volvido pela uni­ver­si­dade fed­eral daqui para a recu­per­ação da cul­tura quilom­bola. Parte desse tra­balho envolve uma pesquisa sobre roda de coco e ciranda. Esses dois exem­p­los são “cul­tura” desen­volvida por ex-escravos, segundo seu artigo, um grupo “sem cul­tura” ou com “mau gosto”. As músi­cas e rit­mos divergem bas­tante do que seria pro­duzido, na mesma época, pela sociedade que ouvia os eru­di­tos franceses.

  3. Henrique on 16 de junho de 2009 at 17:47

    @Teseu: Mestre dos Magos.

  4. Henrique on 16 de junho de 2009 at 17:58

    @Mythus: O que é arte?
    Quando uma ado­les­cente de 13 anos escreve um poem­inha de amor no diário da Hello Kitty, sem metro, sem ritmo, sem imagética, sem expres­sivi­dade, isso é arte ape­nas porque alguém decidiu chamá-lo poema? Quando um índio nos con­fins da Amazô­nia faz um pote de barro isso é arte?
    É pre­ciso saber difer­en­ciar a “cul­tura” da “arte”. O funk car­ioa é um lixo, mas é um fenô­meno cul­tural (por favor, fenô­meno aqui não tem nen­huma cono­tação de coisa boa :-P ).
    Eu acho que o artista é alguém que domi­nou um método, é alguém que domi­nou sua arte e que sabe fazê-la de modo espe­cial, difer­ente dos demais. A arte deve enl­e­var o homem, mas hoje em dia criou-se a ilusão de que qual­quer imbe­cil pode fazer arte. Isso é o mesmo que dizer que qual­quer um pode ser Elvis ou Da Vinci. O que se cria é uma horda de idio­tas ilu­di­dos, sem tal­ento e, mesmo assim, em evidên­cia porque mostram aos Zés Ninguém da arte que mesmo sendo um Zé Ninguém, se con­seguir jun­tar m monte de gente igual a você pode se con­vencer de que faz algo bom.
    (Falei igual ao Teseu em Cav­erna do Dragão)

  5. Teseu on 16 de junho de 2009 at 18:52

    Me chama de Mestre dos Magos porque sua mente inflexível não é capaz de cap­tar com obje­tivi­dade muito do que se passa a seu redor, mas mesmo assim vou levar como elogio.

  6. Mythus on 16 de junho de 2009 at 20:44

    Eu sabia que você iria para esse lado, meu jovem padawan. ;)

    Toda arte é cul­tura. Mas nem toda cul­tura é arte. Mas os exem­p­los que dei são de arte pop­u­lar. E você ainda se fur­tou dos meus ques­tion­a­men­tos. Agora vejamos o Aurélio:

    cul­tura
    [Do lat. cul­tura.]
    S. f.
    5. O con­junto de car­ac­terís­ti­cas humanas que não são inatas, e que se criam e se preser­vam ou apri­moram através da comu­ni­cação e coop­er­ação entre indi­ví­duos em sociedade. [Nas ciên­cias humanas, opõe-se por vezes à idéia de natureza, ou de con­sti­tu­ição biológ­ica, e está asso­ci­ada a uma capaci­dade de sim­boliza­ção con­sid­er­ada própria da vida cole­tiva e que é a base das inter­ações soci­ais.]
    6. A parte ou o aspecto da vida cole­tiva, rela­ciona­dos à pro­dução e trans­mis­são de con­hec­i­men­tos, à cri­ação int­elec­tual e artís­tica, etc.
    7. O processo ou estado de desen­volvi­mento social de um grupo, um povo, uma nação, que resulta do apri­mora­mento de seus val­ores, insti­tu­ições, cri­ações, etc.; civ­i­liza­ção, pro­gresso.
    8. Ativi­dade e desen­volvi­mento int­elec­tu­ais de um indi­ví­duo; saber, ilus­tração, instrução.
    9. Refi­na­mento de hábitos, modos ou gos­tos.
    10. Apuro, esmero, elegância.

    arte
    [Do lat. arte.]
    S. f.
    1. Capaci­dade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da fac­ul­dade de dom­i­nar a matéria: A arte de usar o fogo surgiu nos primór­dios da civ­i­liza­ção.
    3. Ativi­dade que supõe a cri­ação de sen­sações ou de esta­dos de espírito de caráter estético, car­rega­dos de vivên­cia pes­soal e pro­funda, podendo sus­ci­tar em out­rem o desejo de pro­longa­mento ou ren­o­vação: uma obra de arte; as artes visuais; arte reli­giosa; arte pop­u­lar; a arte da poe­sia; a arte musi­cal.
    6. O con­junto das obras de arte de uma época, de um país, de uma escola: a arte pré-histórica; a arte mod­erna; a arte ital­iana; a arte impressionista.

    Não há como elim­i­nar o caráter cul­tural de val­oriza­ção de uma arte. Não há como apon­tar uma cul­tura sem arte. Arte só é arte se for apre­ci­ada pelo cole­tivo. Se fizer parte da cul­tura cole­tiva, seja elit­ista seja popular.

  7. Henrique on 16 de junho de 2009 at 21:21

    @Mythus: Cuidado para não con­fundir o sinôn­imo Cul­tura com a ver­tente Cul­tura Pop­u­lar. Em uma dize­mos: “aquele é um homem letrado, culto”, na outra dize­mos “veja que belos potes fazem na cul­tura indí­gena”.
    Arte é outra história; faz mais de 2000 anos que os gre­gos dom­i­naram a escul­tura e faz mais de 2000 anos que os índios con­tin­uam fazendo potes de barro (os homens das cav­er­nas tam­bém tin­ham potes de barro, né?). Tem mané que paga for­tu­nas pelos tais potes de barro; par­tic­u­lar­mente eu não pagaria nada por uma coisa que eu mesmo pudesse fazer.

  8. Estrela on 10 de julho de 2010 at 05:24

    Meu filho, você colo­cou minha poe­sia nesse site para com­parar com CAMÕES e dizer que minha poe­sia VOCÊ é lixo perto de CAMÕES?

    Como você é sem noção!!!!!!

    Pegou uma poe­sia, (que nem é poe­sia, é um Recado Amoroso) entre as mais de 600 que tenho no meu site para com­parar com o gênio CAMÕES.

    Eu escrevo por lazer, não sou Cecília Meireles.

    Tenha a santa paciência.…

    Estrela Matutina

  9. Gabriela on 9 de março de 2011 at 03:24

    Sim, gosto se dis­cute, mas por mais que lhe seja inco­modo, faz parte da vida social aceitar a diversidade.

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