O título foi uma ironia pois, sim, companheiro, gosto se discute e mau gosto é coisa para lamentar.
Recentemente deliciei-me com mais uma crônica escrita (e interpretada) pelo genal escritor/neurologista Salomão Schwartzman onde o bom doutor ironizava de forma polida o extremo mau gosto dos nossos dias. Uma frase da crônica, no entanto, fez soar na minha percepção aqueles acordes perfeitos que só uma epifania pode fazer vibrar: “bom gosto é algo que se aprende e só é possível ter noção do que é bom gosto depois de adquirir bagagem cultural suficiente para reconhecê-lo”.
Sempre me culpei por não ter nascido com o dom da hipocrisia, de não poder sorrir e devorar com avidez mesmo o prato menos palatável ou de não tratar com uma boa e velha conivência civilizada os verdadeiros atentados à arte que diluíram a arte de verdade. Em vez disso, nasci munido da má educação de afastar o prato, de exclamações indignadas e de um bom par de pernas, capaz de me transportar para longe das fontes do meu incômodo.
As coisas “boas” hoje em dia são feitas para uma população medíocre e (que deus me perdoe) montadas de modo a serem tão medíocres quanto aquilo que a população exige: o pão e o circo que é oferecido à maioria de cegos inconscientes parece feito de uma substância insossa, industrializada e feita às pressas para atender (e vender) em massa a uma horda de imbecis que nasce a cada dia. Muitas dessas pessoas, dessa nova geração que já nasceu afogada em todo esse lixo, irá crescer acreditando que ISSO é a verdadeira arte e, acredite, conseguirão fazer pior mesmo a porcaria de agora.
Esses são os efeitos do progresso — dizem alguns — e que agora é a hora de fazer mais e pensar menos e que tudo precisa ser assim, rápido, prático, com poucas linhas, poucos acordes, poucas cores, tudo para não forçar muito o cérebro em detalhes inúteis pois é preciso dar à alma de mundo gente pelo menos o grude que a impede de sumir por completo. Basicamente, os padrões estão caindo e o que era ruim antes, quando a arte e o entretenimento não eram tão pasteurizados, hoje em dia já é bom e aclamado: estamos virando um bando de subnutridos que não têm sequer a vaga idéia do que é uma refeição.
Vamos fazer comparações?
Na literatura em poesia:
Procurei no Recanto das Letras o texto mais lido da semana.
|
Soneto
Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, É vivo eu cá na terra sempre triste. … Se lá no assento etéreo , onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. … E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te … Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te. Quão cedo de meus olhos te levou. |
VOCÊ
Você despertou o amor em mim, quando me amou docemente. Acordou-me do sono profundo, ressuscitou-me plenamente. … É minha fonte de prazer e também meu bem querer. Serei sua fiel amante pois minha luz vem de você. … Mesmo que o tempo passe sua lembrança não apagará. … Lembrarei dos seus carinhos e do seu amor a me guiar ao longe… nos caminhos … … Obrigada meu amor, eu lhe ofereço este carinho. |
|
Texto de Luís de Camões |
Texto contemporâneo: Estrela Matutina – Recanto das Letras |
Na literatura em prosa:
|
Trecho de “Os Miseráveis” de Victor Hugo – Descrevendo Jean Valjean (o protagonista) |
Trecho de “O Código Da Vinci” de Dan Brown – Descrevendo Robert Langdon (o protagonista) |
|
Era um homem ainda no vigor da idade, de estatura mediana e robusto. Poderia ter, quando muito, quarenta e seis ou quarenta e oito anos. Escondia-lhe parte do rosto, crestado pelo sol e a escorrer em suor, um boné de pala de couro A camisa, de linho grosseiro e amarelado, apertada no pescoço por uma pequena âncora de prata, deixava-lhe a descoberto o peito cabeludo; trajava calças de cotim azul, muito velhas, coçadas, brancas num joelho e rotas no outro, uma esfarrapada blusa parda, tendo num dos cotovelos um remendo de pano verde, cosido com cordel. Servia-lhe de gravata um lenço torcido, enrolado em volta do pescoço. Calçava sapatos forrados, sem meias, e trazia às costas uma volumosa mochila de soldado, em bom estado e muito apertada, e na mão um enorme cajado nodoso. Afora isto, trazia a barba crescida, os cabelos eram raros e eriçados, mas parecia não terem sido cortados havia muito tempo. |
Os olhos azuis de Langdon, geralmente aguçados, pareciam embaçados e fundos naquela noite. Uma barba escura por fazer lhe envolvia toda a mandíbula forte e o queixo com covinha. Em torno das têmporas, fios grisalhos de cabelo avançavam, penetrando na sua cabeleira negra espessa. Embora suas colegas insistissem que o grisalho só acentuava seu charme intelectual, Langdon não se deixava enganar. “Se ao menos a Boston Magazine pudesse me ver agora”, pensava. No mês anterior, para grande constrangimento de Langdon, o periódico Boston Magazine o havia incluído entre uma das dez pessoas mais estimulantes da cidade — honra dúbia que o tornou objeto de infindável gozação por parte de seus colegas de Harvard. |
E, pasmem, houve pessoas ovacionando a “genialidade” do escritor do Código Da Vinci. Não aguentei sequer chegar à metade porque o livro parecia escrito por um adolescente.
Na escultura:
Compare uma obra de Michaelangelo com uma do renomado escultor romeno Constantin Brâncuşi.
Na pintura:
Até arte feita por bichos é vendida (e comprada) por seres humanos.
Na música:
Acabou-se, também, a música. Hoje em dia se o seu som não servir para balançar a bunda ou bater coxa nem para expressar uma revolta ridícula de filhinhos-de-papai não fará sucesso. Não é preciso saber cantar (como provam Pitty e outros da mesma safra) e os shows viraram uma concentração ridícula de artistas inexpressivos com um público zumbi pré-programado.
Compare Marisa Monte cantando “Cérebro eletrônico” e Pitty cantando “Admirável chip novo”
Marisa Monte
httpv://www.youtube.com/watch?v=aXJ_Ub1xbhw&feature=related
Pitty
A resistência, caro leitor, concentra-se em ilhas, pequenos grupos de pessoas que se recusam a beber da água suja que é vendida às massas e procura, mesmo que seja mais difícil, beber da fonte pura e cristalina da boa arte. Depois – e só depois – de adquirir bagagem cultural suficiente uma pessoa pode discernir o que é arte e o que não é. Torna-se possível, então, discutir se Eric Clapton é melhor (ou pior) que Pink Ployd, se a Legião Urbana venceria o NX Zero na porrada ou qual ator seria melhor para o filme Y.
Mas, o que acontece se mesmo depois de adquirir bagagem cultural eu ainda gostar do Molejão e do Babado Novo? Nesse caso, leitor, sinto muito informar, mas você tem mau gosto.



[…] Gosto não se discute http://mosaicum.org/2009/06/14/gosto-nao-se-discute/ […]
A entropia é universal, nada está tão ruim que não possa piorar.
Em todas as áreas de nosso conhecimento isso pode ser visto, na área social não seria diferente, a desordem e o caos são o nosso futuro.
Alguns acham que isso é pessimismo, acho que é apenas uma questão de aceitar a realidade. Quem me conhece sabe que não sou pessimista, de vez em quando um pouco acomodado (uma vez que gosto de estar do lado da solução e não do problema, mas isso é outro assunto), o que acontece é que convivo com a realidade e sobrevivo a ela.
Aí alguém poderia dizer que sou muito apático ou vivo em desespero, nem um nem outro. Aceito a realidade, trabalho para mudar o que estiver ao meu alcance e no mais me adapto. Acha complicado? Tem gente que mora no Rio de Janeiro e acha maravilhoso, isso sim é dureza…
Lamentável você não gostar de Pitty :^p
Agora vejamos num ponto de vista mais sociológico. Como foi definida a cultura de “qualidade”? Quem pode decidir se Patativa do Assaré é mais (ou menos) profundo (culturalmente) que Camões?
Entre Andy Warhol e Picasso, quem foi um artista mais consciente do seu trabalho?
O próprio discurso sobre o que é cultura ou sobre sua qualidade é algo de difícil concepção. Se a cultura for elitista e não conseguir projetar-se no tempo para as gerações futuras e morrer no esquecimento, terá algum valor? Se a cultura de massa perpetuar-se no tempo continuamente através das gerações, como as cantigas de roda e outras manifestações folclóricas, deveriam ser menosprezadas?
Existe um trabalho antropológico muitíssimo interessante sendo desenvolvido pela universidade federal daqui para a recuperação da cultura quilombola. Parte desse trabalho envolve uma pesquisa sobre roda de coco e ciranda. Esses dois exemplos são “cultura” desenvolvida por ex-escravos, segundo seu artigo, um grupo “sem cultura” ou com “mau gosto”. As músicas e ritmos divergem bastante do que seria produzido, na mesma época, pela sociedade que ouvia os eruditos franceses.
@Teseu: Mestre dos Magos.
@Mythus: O que é arte?
).
Quando uma adolescente de 13 anos escreve um poeminha de amor no diário da Hello Kitty, sem metro, sem ritmo, sem imagética, sem expressividade, isso é arte apenas porque alguém decidiu chamá-lo poema? Quando um índio nos confins da Amazônia faz um pote de barro isso é arte?
É preciso saber diferenciar a “cultura” da “arte”. O funk carioa é um lixo, mas é um fenômeno cultural (por favor, fenômeno aqui não tem nenhuma conotação de coisa boa
Eu acho que o artista é alguém que dominou um método, é alguém que dominou sua arte e que sabe fazê-la de modo especial, diferente dos demais. A arte deve enlevar o homem, mas hoje em dia criou-se a ilusão de que qualquer imbecil pode fazer arte. Isso é o mesmo que dizer que qualquer um pode ser Elvis ou Da Vinci. O que se cria é uma horda de idiotas iludidos, sem talento e, mesmo assim, em evidência porque mostram aos Zés Ninguém da arte que mesmo sendo um Zé Ninguém, se conseguir juntar m monte de gente igual a você pode se convencer de que faz algo bom.
(Falei igual ao Teseu em Caverna do Dragão)
Me chama de Mestre dos Magos porque sua mente inflexível não é capaz de captar com objetividade muito do que se passa a seu redor, mas mesmo assim vou levar como elogio.
Eu sabia que você iria para esse lado, meu jovem padawan.
Toda arte é cultura. Mas nem toda cultura é arte. Mas os exemplos que dei são de arte popular. E você ainda se furtou dos meus questionamentos. Agora vejamos o Aurélio:
cultura
[Do lat. cultura.]
S. f.
5. O conjunto de características humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. [Nas ciências humanas, opõe-se por vezes à idéia de natureza, ou de constituição biológica, e está associada a uma capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base das interações sociais.]
6. A parte ou o aspecto da vida coletiva, relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e artística, etc.
7. O processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação, que resulta do aprimoramento de seus valores, instituições, criações, etc.; civilização, progresso.
8. Atividade e desenvolvimento intelectuais de um indivíduo; saber, ilustração, instrução.
9. Refinamento de hábitos, modos ou gostos.
10. Apuro, esmero, elegância.
arte
[Do lat. arte.]
S. f.
1. Capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria: A arte de usar o fogo surgiu nos primórdios da civilização.
3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação: uma obra de arte; as artes visuais; arte religiosa; arte popular; a arte da poesia; a arte musical.
6. O conjunto das obras de arte de uma época, de um país, de uma escola: a arte pré-histórica; a arte moderna; a arte italiana; a arte impressionista.
Não há como eliminar o caráter cultural de valorização de uma arte. Não há como apontar uma cultura sem arte. Arte só é arte se for apreciada pelo coletivo. Se fizer parte da cultura coletiva, seja elitista seja popular.
@Mythus: Cuidado para não confundir o sinônimo Cultura com a vertente Cultura Popular. Em uma dizemos: “aquele é um homem letrado, culto”, na outra dizemos “veja que belos potes fazem na cultura indígena”.
Arte é outra história; faz mais de 2000 anos que os gregos dominaram a escultura e faz mais de 2000 anos que os índios continuam fazendo potes de barro (os homens das cavernas também tinham potes de barro, né?). Tem mané que paga fortunas pelos tais potes de barro; particularmente eu não pagaria nada por uma coisa que eu mesmo pudesse fazer.
Meu filho, você colocou minha poesia nesse site para comparar com CAMÕES e dizer que minha poesia VOCÊ é lixo perto de CAMÕES?
Como você é sem noção!!!!!!
Pegou uma poesia, (que nem é poesia, é um Recado Amoroso) entre as mais de 600 que tenho no meu site para comparar com o gênio CAMÕES.
Eu escrevo por lazer, não sou Cecília Meireles.
Tenha a santa paciência.…
Estrela Matutina
Sim, gosto se discute, mas por mais que lhe seja incomodo, faz parte da vida social aceitar a diversidade.