O nascimento do cê-cedilha

6 de fevereiro de 2009
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ce_cedilhaQuando cur­sava o segundo grau eu gostava muito dos detal­hes das coisas; a maior parte do tempo me per­dia em minús­cias de uma questão qual­quer (que difi­cil­mente era rela­cionada com o con­teúdo do curso). Tive uma exce­lente pro­fes­sora de por­tuguês e lit­er­atura que, por assim dizer, me fez pegar gosto pelo assunto.

Certa vez, no meio de um assunto banal, eu fazia per­gun­tas estra­nhas do tipo “é pre­ciso colo­car o pingo em cima do J?” ou sobre o curioso caso do nome Shake­speare que não é oxí­tona, nem parox­í­tona e nem proparox­í­tona. E como a questão eram as curiosi­dades da lin­guagem, sem que eu per­gun­tasse ela disse “aquilo debaixo do cê-cedilha é uma vír­gula”. Isso nunca mais me saiu da cabeça, de tal forma que um dia desses decidi dar uma “Googlada” para ver o que encon­traria sobre o assunto e de fato, desco­bri que minha pro­fes­sora estava par­cial­mente errada; aquele sinalz­inho que fica logo abaixo do C no cê-cedilha havia se tor­nado uma vír­gula ape­nas por facil­i­dade de grafia, mas não é isso exata­mente que ele representa.

O cê-cedilha originou-se no espan­hol e o Dicionário de Oxford reg­is­tra pela primeira vez o seu uso em 15991, num dicionário de espanhol-inglês. A função do cê-cedilha era rep­re­sen­tar um vocábulo semel­hante a um /ts/, tanto que na edição orig­i­nal de Dom Quixote (1605), de Miguel de Cer­vantes, o nome do escud­eiro é escrito San­cho Pança e não Panza, como se usa atual­mente no espan­hol moderno.

Ainda, nos tex­tos arcái­cos aparece o dígrafo Cʒ que é o C segido de um Z visigótico, o qual, mais tarde, seria sub­sti­tuído pelo Ç. Com o tempo, con­tudo, esse Z (chamado de “zeda” no espan­hol) foi sendo reduzido e acabou ocu­pando um lugar abaixo do C. A palavra cedilha deriva, por­tanto, do espan­hol zedilla, que sig­nifica “Z pequeno”. Atual­mente, por como­di­dade tipográ­fica, o cedilha é rep­re­sen­tado por uma vírgula.

  1. a b c d “cedilla” Oxford Eng­lish Dic­tio­nary (2nd ed.)
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4 Responses to O nascimento do cê-cedilha

  1. MYTHUS on 6 de fevereiro de 2009 at 23:09

    Quanto a Shake­speare, só há duas sílabas: \ˈshāk-ˌspir\
    Lembre-se que no inglês, a divisão silábica é fonética.

    Muito inter­es­sante o texto. Agora eu quero saber do fale­cido trema, dos acen­tos e da geome­tria das letras :D

    • PEDRO MELCOP on 7 de dezembro de 2009 at 02:53

      Na ver­dade, a divisão silábica do inglês tem muito mais a ver com a eti­molo­gia do que com a fonética (a divisão silábica do por­tuguês não é fonética?). E a cedilha (não “o cedilha”) NÃO é rep­re­sen­tada por uma vír­gula, são car­ac­teres tipográ­fi­cos bas­tante difer­entes. Em out­ras lín­guas, como o turco, a cedilha tam­bém é usada embaixo de out­ras letras, como o s.

  2. HENRIQUE JUNIOR on 7 de fevereiro de 2009 at 00:41

    @Mythus
    De fato, Mit­ulino, pouco depois ela me expli­cou o caso da local­iza­ção da sílaba tônica em “Shake­speare”. Sobre as letras, eu estava mesmo pen­sando em fazer um histórico de como foram “cri­adas”, mas leva teeeempo.

  3. PATRICIA on 8 de maio de 2009 at 22:12

    Inter­es­sante descoberta…Será que os por­tugue­ses sabem disso?!?Rs…
    Sua pro­fes­sora deve ter pas­sado “bons aper­tos” com você!Rs…Mas gaanto que ela apren­deu muito com isso! Adoro alunos que instigam pro­fes­sores a bus­car respostas.

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