Quando cursava o segundo grau eu gostava muito dos detalhes das coisas; a maior parte do tempo me perdia em minúscias de uma questão qualquer (que dificilmente era relacionada com o conteúdo do curso). Tive uma excelente professora de português e literatura que, por assim dizer, me fez pegar gosto pelo assunto.
Certa vez, no meio de um assunto banal, eu fazia perguntas estranhas do tipo “é preciso colocar o pingo em cima do J?” ou sobre o curioso caso do nome Shakespeare que não é oxítona, nem paroxítona e nem proparoxítona. E como a questão eram as curiosidades da linguagem, sem que eu perguntasse ela disse “aquilo debaixo do cê-cedilha é uma vírgula”. Isso nunca mais me saiu da cabeça, de tal forma que um dia desses decidi dar uma “Googlada” para ver o que encontraria sobre o assunto e de fato, descobri que minha professora estava parcialmente errada; aquele sinalzinho que fica logo abaixo do C no cê-cedilha havia se tornado uma vírgula apenas por facilidade de grafia, mas não é isso exatamente que ele representa.
O cê-cedilha originou-se no espanhol e o Dicionário de Oxford registra pela primeira vez o seu uso em 15991, num dicionário de espanhol-inglês. A função do cê-cedilha era representar um vocábulo semelhante a um /ts/, tanto que na edição original de Dom Quixote (1605), de Miguel de Cervantes, o nome do escudeiro é escrito Sancho Pança e não Panza, como se usa atualmente no espanhol moderno.
Ainda, nos textos arcáicos aparece o dígrafo Cʒ que é o C segido de um Z visigótico, o qual, mais tarde, seria substituído pelo Ç. Com o tempo, contudo, esse Z (chamado de “zeda” no espanhol) foi sendo reduzido e acabou ocupando um lugar abaixo do C. A palavra cedilha deriva, portanto, do espanhol zedilla, que significa “Z pequeno”. Atualmente, por comodidade tipográfica, o cedilha é representado por uma vírgula.

Quanto a Shakespeare, só há duas sílabas: \ˈshāk-ˌspir\
Lembre-se que no inglês, a divisão silábica é fonética.
Muito interessante o texto. Agora eu quero saber do falecido trema, dos acentos e da geometria das letras
Na verdade, a divisão silábica do inglês tem muito mais a ver com a etimologia do que com a fonética (a divisão silábica do português não é fonética?). E a cedilha (não “o cedilha”) NÃO é representada por uma vírgula, são caracteres tipográficos bastante diferentes. Em outras línguas, como o turco, a cedilha também é usada embaixo de outras letras, como o s.
@Mythus
De fato, Mitulino, pouco depois ela me explicou o caso da localização da sílaba tônica em “Shakespeare”. Sobre as letras, eu estava mesmo pensando em fazer um histórico de como foram “criadas”, mas leva teeeempo.
Interessante descoberta…Será que os portugueses sabem disso?!?Rs…
Sua professora deve ter passado “bons apertos” com você!Rs…Mas gaanto que ela aprendeu muito com isso! Adoro alunos que instigam professores a buscar respostas.